Pesquisa e edição por Luis Fernando Salles

Dados da ANTT apontam que, dos 28.218 quilômetros da malha ferroviária, 8,6 mil km – o equivalente a 31% – estão subutilizados ou inoperantes, o restante foi abandonado. Uma das alternativas para essa questão é a criação das chamadas short lines, disseram especialistas que estiveram na 24ª Semana de Tecnologia Metroferroviária. Eles defenderam que o tema seja discutido no processo de renovação antecipada dos contratos de concessão e que haja mudanças no marco regulatório, para que esta alternativa seja viável no Brasil. O evento foi realizado no decorrer de agosto, no auditório da faculdade UNIP, em São Paulo.

O secretário-geral da Associação Latino-Americana de Ferrovias (Alaf), Jean Pejo, chamou as short lines de “ferrovias 4.0”. Pejo disse que elas podem ser tanto um empreendimento greenfield, uma linha nova, quanto brownfield, que é o que mais vem sendo discutido, o aproveitamento de linhas já existentes.

Para viabilizar as short lines, entretanto, é necessária uma quebra de paradigmas, diz Pejo. “Não é verdade que ferrovia, para dar lucro, tem que ser grandes volumes e grandes distâncias. Está aí a Europa para dizer o contrário”. Outro ponto é que trem de passageiro pode conviver com trem de carga, ressaltou, afirmando que as short lines podem viabilizar a volta dos trens regionais de passageiros.

Ele também disse que é impossível ter empresas de short lines com um modelo de regulação “forte, pesado”, como é o brasileiro. “Para que isso aconteça no curto prazo, é necessário que se mude a regra dos atuais contratos de concessão. E para mudar as regras de contratos de concessão é importante discutir a antecipação da renovação das concessões”.

O consultor Frederico Bussinger, por sua vez, apresentou o exemplo do mercado norte-americano. Ele explicou porque o mercado de short lines floresceu por lá, ao contrário daqui. “Não é verdade que nos EUA não há intervenção governamental. O padrão de relacionamento é diferente. Eles atuam de forma pragmática, com foco no resultado”.

Bussinger contou que o governo norte-americano possui duas agências para tratar do assunto, uma que atua na área econômica e outra, na de segurança. A gestão, por sua vez, é livre, o que ele considera crucial. Bussinger desfez o mito de que a short lines é exclusivamente de curta extensão ao contar que, por lá, há short lines de 1.200 km. A característica principal da short line é que são empresas pequenas. “Eu visitei uma empresa com algumas dezenas de funcionários em que o proprietário, o dono, era maquinista também”.

Por fim, deu alguns recados incisivos. “Sou cético de que, neste ambiente institucional, seja possível ter short lines no Brasil. (…) Mas não sou cético para ‘colocar o pijama’. A comunidade ferroviária tem que colocar o dedo na ferida, pois a short line só decola se a sociedade se engajar”.

Fonte: Revista Ferroviária