Pesquisa e edição por Luis Fernando Salles

 Passeio em maria-fumaça do século 18 faz lembrar que a vida já teve outro ritmo

Caminhar pelas ruas de pedra da histórica Tiradentes admirando a arquitetura das casas coloniais e a riqueza barroca de suas igrejas e museus, é vislumbrar um pouco do que foi a vida nos séculos 18 e 19.

Uma ótima maneira de prolongar essa experiência é fazer o passeio de trem que liga Tiradentes e São João del Rei. O trajeto de 12 quilômetros entre as duas cidades percorre um trecho da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas, a primeira ferrovia de pequeno porte no país, inaugurada em agosto de 1881 com a presença do imperador dom Pedro 2º.

A viagem acontece, ainda hoje, a bordo de antigas locomotivas a vapor. Chamadas popularmente de marias-fumaça, por causa das nuvens de vapor que saem das chaminés, essas máquinas tiveram um outro apelido, não tão conhecido: balduínas, derivado do nome da empresa norte-americana que fabricava os trens daquela época, a Baldwin Locomotive Works-Philadelphia.

Sugerimos começar a viagem ao passado na estação de trem de Tiradentes, uma construção bem conservada que, como todo o complexo ferroviário da região, é protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Vigorosos apitos de trem anunciam a chegada da maria-fumaça à estação, causando rebuliço e expectativa, especialmente entre as crianças. Depois do desembarque dos passageiros que vêm de São João del Rei, a locomotiva é desengatada, invertida manualmente no girador, e engatada novamente na mdireção oposta.

Os vagões, cujos interiores foram totalmente restaurados, têm modelos de assento diferentes uns dos outros. Alguns são de madeira e lembram os antigos bancos escolares. Outros, mais confortáveis, são estofados. Quase todos têm encostos móveis.

Depois da chegada à estação, um funcionário percorre toda a composição virando o encosto das poltronas, para a viagem de volta.

Uma vez em movimento, das janelas do lado direito do trem, partindo de Tiradentes, se avistam belas paisagens: fazendas com vacas e cavalos pastando soltos, pequenos açudes com patos e o imponente paredão da Serra de São José, que inclui uma área de proteção ambiental.

Do lado esquerdo da linha férrea, o visual não é tão poético. Por ele se estende a Várzea de Baixo, bairro pouco favorecido da cidade, com casas simples, feitas de blocos aparentes, típicas dos subúrbios.

O chacoalhar do trem, que leva cerca de 45 minutos para vencer a distância entre as cidades, lembra que a vida já teve outro ritmo, mais vagaroso. Um tempo em que as remessas de dinheiro chegavam pelo trem pagador, e as cabines tinham cortinas de veludo e camas forradas de seda adamascada, para acomodar membros da nobreza.

Peças como essas estão no Museu Ferroviário, que pode ser visitado gratuitamente na estação de São João del-Rei. Lá, além de painéis explicativos e objetos da época da construção da ferrovia, está a primeira locomotiva da linha, fabricada em 1880 na Filadélfia (EUA). O espaço funciona de quarta a domingo.

Ao desembarcar na plataforma de São João del Rei, o viajante encontra ainda uma feirinha de artesanato com peças típicas da região, feitas de crochê, madeira e metal.

Mas, se quiser levar para casa algo mais do que as singelas lembrancinhas à venda, pode se dirigir a um estúdio fotográfico que funciona dentro de um vagão desativado. Depois de escolher um dos muitos figurinos de época, é só posar para um retrato à moda antiga, ao lado do trem centenário.

Apesar não ter tantos atrativos turísticos quanto Tiradentes, vale a pena conhecer o centro histórico e as principais igrejas de São João del Rei: a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e, especialmente, a Igreja de São Francisco de Assis, projetada por Aleijadinho.

É possível fazer o passeio por conta própria, a pé, e voltar num trem posterior. Outra opção é contratar previamente um tour com guia turístico numa das agências de turismo de Tiradentes. Nesse caso, uma van levará os turistas para os pontos importantes e retornará a Tiradentes pela Estrada Real.

O que saber antes de embarcar

– A melhor vista do passeio fica do lado direito do trem, no sentido Tiradentes – São João del Rei. Mas as janelas são amplas e dá muito bem para se sentar no lado oposto e espiar a paisagem pela janela do vizinho. Os bilhetes devem passar a ter lugares marcados em meados de setembro

– Quem tem maior sensibilidade auditiva deve evitar se sentar nos primeiros vagões, pois o apito do trem é alto. Dizem que nessas composições há maior risco da fumaça atrapalhar a visibilidade, mas tudo depende da direção e da força do vento. No dia da reportagem, não houve esse problema

– A maria-fumaça roda normalmente nas sextas-feiras, sábados e domingos.

Em feriados, há mais opções de dias e horários. Informe-se antes de ir

– Os ingressos podem ser comprados pela internet, no site da VLI Logística (https://vli-logistica.com/pt-br/trem-turistico), operadora da linha de trem. Ou

presencialmente, nas bilheterias das estações de Tiradentes e São João del Rei

– As tarifas do passeio são de R$ 70 somente ida e R$ 80 para ida e volta (mais taxa de serviço pela internet). Estudantes, crianças até 5 anos e adultos commais 60 anos têm direito à meia-entrada. Mais informações sobre a Maria Fumaça em São João del Rei ou Tiradentes pelo tel.: (32) 3371-8485.

Fonte: Internet, Folha de São Paulo