Cronica de Saiddelvaux ( blog do Said )
Amauri e Professor Abelha, peço permissão para postar a carta que gostaria de ter enviado ao Jornal Valor Econômico e a uma certa “turma”.
  • jornal Valor Econômico publicou na sua edição do dia 20/02/2018 matéria com o título Desativada há 11 anos, RFFSA consome R$ 153 mi por mês em benefícios de inativos. O conteúdo da matéria apresenta números impactantes que levam o leitor desatento a criticar sobre o quão arrastado é o processo de extinção de órgãos públicos (sic). Não fica claro se o objetivo do texto é informar ou deformar a opinião.
Primeiro cabem as perguntas: Quando uma empresa privada é extinta, encerra as suas atividades, os seus ex-empregados que se aposentaram continuam recebendo as suas aposentadorias ou seus proventos são suspensos porque a empresa fechou as portas? É importante enfatizar isto porque um dos argumentos do autor da matéria é o valor que o governo federal desembolsa com os aposentados e pensionistas da extinta Rede Ferroviária Federal S.A. As pensões instituídas pelos titulares dos benefícios da suposta empresa privada falida são suspensas?
Será que o autor da matéria entende que a extinção da RFFSA deveria levar também à extinção de milhares de ferroviários que TRABALHARAM por décadas nas Estações, Oficinas, Cabines de Locomotivas, ao longo das Vias Férreas, Centros de Formação Profissional, Prédios Administrativos etc.? Qual a sugestão do autor? Fuzilamento, envenenamento, câmara de gás ou outra maneira rápida de matar os ferroviários e seus sucessores por direito? Com certeza ele não é o único que pensa assim. Burocratas do governo federal querem o mesmo, mas estão fazendo isto em doses homeopáticas, matando os ferroviários lentamente, depois de terem aniquilado o sistema ferroviário do país. Tudo isto sob o mais completo silêncio de jornalistas (sic), mais preocupados com o “arrastado processo de extinção de órgão públicos” e também diante da omissão dos representantes (?) do povo, Judiciário etc.
Para o autor da matéria, os milhares de ferroviários, que dedicaram as suas vidas ao serviço público e se aposentaram, são, agora, um pesado fardo para a Sociedade e não merecem muito mais que a chibata, afinal oneram o erário com a sua idade (!), com as suas necessidades, doenças, limitações…
  • autor da matéria ainda se aventura nos números, sem conhecê-los, sem se aprofundar neles, se esmerando na prática do mau jornalismo. Vamos a eles com a disposição de quem quer fazer valer a Justiça e o respeito às Pessoas.
Em média, com base na matéria publicada, os benefícios mensais dos ferroviários aposentados e pensionistas estão próximos de R$ 2.800,00. Vale dizer que os ferroviários têm os seus proventos amparados pelas Leis 8.186/91 e 10.478/02. São esses direitos que incomodam tanto os burocratas. Lembro a eles, no entanto, as palavras da MM Juíza Raquel Domingues do Amaral, da 1ª Vara Federal de Dourados/MS:
“(…) Os direitos são feitos de suor, de sangue, de carne humana apodrecida nos campos de batalha, queimada em fogueiras! Quando abro a Constituição no artigo quinto, além dos signos, dos enunciados vertidos em linguagem jurídica, sinto cheiro de sangue velho!
Vejo cabeças rolando de guilhotinas, jovens mutilados, mulheres ardendo nas chamas das fogueiras! Ouço o grito enlouquecido dos empalados.
Deparo-me com crianças famintas, enrijecidas por invernos rigorosos, falecidas às portas das fábricas com os estômagos vazios! Sufoco-me nas chaminés dos Campos de concentração, expelindo cinzas humanas! Vejo africanos convulsionando nos porões dos navios negreiros. Ouço o gemido das mulheres indígenas violentadas. Os direitos são feitos de fluido vital! Pra se fazer o direito mais elementar, a liberdade, gastou-se séculos e milhares de vidas foram tragadas, foram moídas na máquina de se fazer direitos, a revolução!
Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais? Engana-te! O direito é feito com a carne do povo! Quando se revoga um direito, desperdiça-se milhares de vidas… Os governantes que usurpam direitos, como abutres, alimentam-se dos restos mortais de todos aqueles que morreram para se converterem em direitos! Quando se concretiza um direito, meus jovens, eterniza-se essas milhares vidas! Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência! O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!
Os direitos dos ferroviários foram conquistados com trabalho, luta e sangue.
Voltando aos números.
Os benefícios médios dos ferroviários não são absurdos, são na verdade inferiores à média da remuneração dos ferroviários das empresas privadas. E mais, não custa lembrar, não é preciso ser muito inteligente para observar que ao longo das suas vidas de trabalho, os ferroviários contribuíram com o INSS [para a surpresa(!) do autor da matéria]. Adotando os números da publicação e sendo bastante prudente no cálculo das médias, os ferroviários contribuíram com aproximadamente R$ 11 bilhões para o Sistema Previdenciário (que devem ser somados à parte do empregador) durante os 40 anos em que a extinta RFFSA operou, transportou bilhões de tku´s e milhões de passageiros, em trens cargueiros unitários, mistos, de carga geral, trens suburbanos e de interior. Essa mesma RFFSA produziu receitas de quase R$ 150 bilhões, no mesmo período, pagando impostos e encargos, produzindo ganhos para a balança comercial, empregos indiretos, incrementando e valorizando o Patrimônio da União.
A RFFSA também formou milhares de profissionais nas suas Escolas Profissionalizantes e proporcionou imensuráveis ganhos para a iniciativa privada, derivados dos fretes subsidiados e das passagens subsidiadas, para apoiar a industrialização do país, inserida no processo de substituição de importações.
De forma mais clara: — Não é por caridade que o governo federal paga os proventos dos ferroviários. Ao contrário, o Estado está ressarcindo mal e parcamente o que foi produzido por milhares de ferroviários na construção, com suor e sangue, do Brasil que temos hoje.
Os ferroviários não podem ser responsabilizados pela corrupção, pelas propinas, pelas obras ferroviárias inacabadas, pela estúpida decisão de privilegiar o transporte rodoviário num país de grandes dimensões. Por decisão de Estado, o Brasil abandonou os trens, se transformou em campeão mundial de mortes nas rodovias e modelo de ineficiência no setor de transportes. Por imposição de alguns burocratas, o Brasil parece querer, agora, aniquilar os ferroviários.
Vale, no entanto, o alerta: — A Classe dos Ferroviários foi forjada na luta, não apenas pelos direitos da Categoria, mas por um Brasil melhor para a nossa gente. Não irão nos calar! A resistência contra o triste período da História do Brasil, iniciado com o golpe militar de 1964, foi a nossa bandeira e dela se beneficiam, hoje, burocratas investidos em cargos, representantes eleitos, governantes, respaldados pela liberdade de expressão proporcionada pela Democracia. Em retribuição, eles dão as costas aos Ferroviários e à Ferrovia Brasileira.
Entregaram a RFFSA aos chacais, que abandonaram ramais, permitiram a depredação e o furto de estações, vagões, locomotivas e a invasão de faixas de domínio. Tentaram silenciar os ferroviários com um estranho processo de extinção. Apagaram créditos vencidos, varreram para debaixo do tapete milhões de R$ a receber; entretanto, um pequeno grupo de ferroviários denunciou, ofereceu resistência e continua a lutar. São os ferroviários, que ao lado dos inativos, ombro a ombro com os nossos Companheiros que ainda resistem nas concessionárias de transporte, que lutam contra a destruição completa do que sobrou do sistema…Não adianta jogar sujo, nossa luta não vai parar.