Por Fernando Abelha

É de fato inolvidável o recente pronunciamento da presidente Dilma Russeft, ao se reunir no Planalto, com juristas e políticos contrários ao processo do seu impedimento, em tramite no Parlamento. Entre outros argumentos contrários – ao que chamou de golpe – foi lembrado, pela Presidente da República, a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, à época governador do Rio Grande do Sul, pelos idos de agosto de 1961.

Defendia-se, então, a posse do vice-presidente da República João Goulart, que se encontrava no exterior, por ocasião da renúncia de Jânio Quadros. Para o sucesso do movimento gaúcho, Leonel Brizola – além da sua destemida liderança e o apoio do comandante do 3º Exército – contou com ação nacional de ferroviários, marítimos e portuários através do denominado PUA – Pacto de Unidade e Ação, que paralisou o País. Os ferroviários, sob as inesquecíveis lideranças  sindicais dos saudosos Demistoclides Baptista (Batistinha) e Herval Arueira, ambos falecidos, participaram ativamente do movimento por todo território nacional.

Brizola morreu… Ferrovias, portos e cabotagem foram privatizados e abandonados os seus trabalhadores pelos chamados políticos de esquerda, o que nos leva a crer que, para o atual momento, faltam lideranças organizadas capazes de defender o governo da presidente através da reedição de movimentos pró-legalidade.

Os ferroviários são poucos. Cerca de  300 em atividade e algumas dezenas de milhares, com avançada idade à mingua de recursos para sobreviver, com seus salários aviltados através de perdas continuadas. O PLANSFER – plano de saúde dos ferroviários e dependentes – foi liquidado por gestores indicados pelo primeiro governo do PT, o que deixou os ferroviários à mingua de atendimento médico, ambulatorial e hospitalar.

Atualmente os ferroviários veem seu acordo coletivo referente a 2014/15 estagnado em grau de recurso  no Tribunal Superior do Trabalho-TST quando, em um primeiro encontro, o ministro relator propôs correção de 5% quando os índices do governo foram de 8.16%.

Para o atual momento, faltam lideranças organizadas capazes de defender o governo da presidente

A trincheira de Brizola

por Marco Grillo

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A partir da esquerda, Tancredo Neves, Leonel Brizola e Jango – O Globo / Arquivo]

‘Eu jamais imaginei que voltaríamos a viver um momento em que se fizesse necessário mobilizar a sociedade em torno de uma nova campanha da legalidade”, disse, na terça-feira, a presidente Dilma Rousseff, após reunir-se com juristas contrários ao impeachment. O discurso de Dilma remonta ao movimento comandado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para garantir o cumprimento da Constituição e a posse do vice-presidente João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros, então presidente.

“O Palácio Piratini, meus patrícios, está aqui transformado em uma cidadela, que há de ser heroica, uma cidadela da liberdade, dos direitos humanos, uma cidadela da civilização, da ordem jurídica, uma cidadela contra a violência, contra o absolutismo, contra os atos dos senhores, dos prepotentes”, afirmou Brizola, em cadeia de rádio, em 28 de agosto de 1961. A fala expunha a resistência à possibilidade de um golpe, defendido inclusive por ministros militares. A Campanha da Legalidade começara três dias antes, logo depois da saída de Jânio. João Goulart, o vice-presidente eleito, estava na China, em viagem oficial. Não contava com a simpatia de setores militares — posição explicitada pelo ministro da Guerra, Marechal Odílio Denys, que se manifestou contra a posse de Jango, apesar de ser esta a determinação constitucional. Em reação ao golpe que era gestado, Brizola transformou a sede do governo, o Palácio Piratini, em Porto Alegre, em trincheira. Reuniu aliados, convocou a Brigada Militar, armou barreiras nos arredores e armou-se — andava pelos corredores acompanhado de uma metralhadora.

O alto comando militar, disposto a impedir a posse de Jango — que representaria a “ameaça comunista” — ordenou que a campanha fosse reprimida e autorizou, “se necessário”, o bombardeio do palácio. Brizola apelou para o espírito legalista dos militares, mas preparou-se para o pior cenário e indicou que resistiria até a última bala. O comandante do III Exército, responsável pela região, general José Machado Lopes, negou-se a cumprir a ordem de seus superiores: ficou ao lado da lei. O Piratini permaneceu de pé, mas a incerteza política ainda reinava — a presidência era ocupada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. Em paralelo, um acordo político foi costurado: o Congresso aprovou o parlamentarismo, e Jango desembarcou no Brasil como primeiro-ministro. O golpe foi adiado por três anos.

Fonte: O Globo