FERROVIA
Ferrovia de Corumbá a São Paulo está sem trem desde dezembro de 2025; minério de Corumbá roda de caminhão pela BR-262 enquanto isso
Por Ricardo Eugenio
A Crítica – Internet
ANTT promete edital da Malha Oeste até dezembro; J&F, Rumo, MRS e FCA estão no radar do leilão de R$ 35 bilhõesANTT promete edital da Malha Oeste até dezembro; J&F, Rumo, MRS e FCA estão no radar do leilão de R$ 35 bilhõesANTT promete edital da Malha Oeste até dezembro; J&F, Rumo, MRS e FCA estão no radar do leilão de R$ 35 bilhõesANTT promete edital da Malha Oeste até dezembro; J&F, Rumo, MRS e FCA estão no radar do leilão de R$ 35 bilhões
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Trilhos da Malha Oeste em Mato Grosso do Sul; ferrovia está sem trem desde dezembro de 2025. Imagem de arquivo. Foto: Chico Ribeiro
A Malha Oeste, a ferrovia que corta Mato Grosso do Sul de Corumbá até o interior de São Paulo, deve ter o edital do novo leilão publicado até o fim de 2026. A previsão foi dada nesta terça-feira (22) pelo diretor substituto da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Marcelo Cardoso Fonseca, em entrevista ao jornal Correio do Estado durante um evento do Valor Econômico em São Paulo. O projeto prevê R$ 35,7 bilhões em obras para recuperar cerca de 1,6 mil quilômetros de trilhos.
Segundo o diretor, quatro grupos estão no radar da disputa: as operadoras ferroviárias Rumo, MRS e FCA e o grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que não opera trens, mas tem carga nas duas pontas da ferrovia em Mato Grosso do Sul: minério em Corumbá e celulose em Três Lagoas.
A promessa contrasta com o que se dizia há menos de dois meses. Em julho, o Tribunal de Contas da União (TCU) pediu dados atualizados do projeto, e o economista Jaime Verruck avaliou que a licitação dificilmente sairia em 2026. As duas previsões podem conviver: publicar o edital não é o mesmo que realizar o leilão, que costuma acontecer meses depois.
Nove meses sem trem
O último trem comercial da Malha Oeste rodou em 1º de dezembro de 2025, levando minério num trecho de cerca de 45 quilômetros em Corumbá. Desde então, a carga foi para a estrada. Em junho, a mineradora LHG Mining, do grupo J&F, informou que cerca de 300 carretas por dia ocupavam a BR-262 e o acesso ao porto Gregório Curvo. “Se for necessário investir, nós vamos investir”, disse na ocasião o representante da empresa, Jamil Sebe.
A concessão, a primeira ferrovia privatizada do país, completou 30 anos e terminou em 30 de junho. Desde então, a Rumo, antiga concessionária, cumpre um contrato emergencial de 180 dias que prevê só vigilância, roçada e limpeza dos trilhos, sem transporte de carga. Depois disso, a conservação passa ao Dnit, que abriu em setembro licitação de R$ 212,5 milhões para cuidar da malha a partir de janeiro de 2027.
Quem tem interesse, e por quê
O trunfo da J&F é a carga. A LHG Mining produz cerca de 12 milhões de toneladas de minério por ano em Corumbá e quer chegar a 25 milhões. A Eldorado, do mesmo grupo, faz celulose em Três Lagoas e planeja mais que dobrar a produção.
A Rumo conhece a ferrovia melhor que ninguém, mas foi ela quem pediu para devolvê-la, em 2020. Em Mato Grosso do Sul, a empresa já opera a Malha Norte, que cruza o leste do Estado levando soja e milho de Mato Grosso a Santos. O problema é técnico: os trilhos da Norte são mais largos que os da Oeste, e um trem não passa de uma para a outra sem baldeação.
MRS e FCA não operam no Estado. O interesse delas está no outro lado do mapa. O projeto prevê ligar a Malha Oeste ao Ferroanel de São Paulo, obra estimada em R$ 6 bilhões que abriria caminho até os portos do Rio e do Espírito Santo, onde as duas já atuam.
O trecho que assusta
A parte mais difícil de vender é o miolo entre Campo Grande e Corumbá, que cruza o Pantanal. O governo chegou a estudar dividir a ferrovia em lotes, com um trecho curto até Três Lagoas, puxado pela celulose. O risco é o vencedor ficar só com a parte lucrativa. Pelo modelo atual, a União põe até R$ 3,6 bilhões no projeto e vence quem combinar menor tarifa e menor necessidade de dinheiro público.
O ramal entre Campo Grande e Ponta Porã voltou ao projeto a pedido do governo do Estado. Não há previsão de trem de passageiros.
