Estatal da China é ao mesmo tempo sócia e fornecedora na linha São Paulo-Campinas, prevista para 2031. Entenda a lógica que move o projeto

Por Alexandre Versignassi

InvesNews – Interne

Não é fácil criar demanda para trem de passageiro. Nem aqui nem na China. O país de Xi Jinping tem 50 mil quilômetros de linhas de alta velocidade – mais do que o resto do mundo somado. Só 5% da malha dá lucro.

Mas essas que dão lucro têm algo em comum. Em boa parte dos casos, são trajetos curtos, na casa dos 100 km, entre cidades ricas e densas: Pequim–Tianjin; Guangzhou–Shenzhen…

Esse é justamente o perfil do eixo São Paulo-Campinas, que vai receber o primeiro trem de passageiros moderno do país. Estamos falando do TIC (Trem Intercidades), previsto para 2031.

Layout do futuro trem São Paulo-Campinas. Foto: DivulgaçãoLayout do futuro trem São Paulo-Campinas (Divulgação)

A faixa entre as duas cidades, recheada por outros 16 municípios, concentra 14% do PIB nacional, numa área de apenas 0,06% do território. Campinas, sozinha, tem o 11º PIB do país, à frente de Fortaleza, Salvador e Recife. Paulínia, ali do lado, é o 18º. 

Se existe um corredor rico e denso o bastante para abrigar um trem de passageiros, é esse. E não é de hoje. A primeira linha férrea entre São Paulo e Campinas é de 1872. No fim do século 20, depois de décadas definhando, essa ligação férrea deixou de existir. Mas a ideia de ressuscitá-la sempre pairou no ar. 

E começou a virar realidade em 2023, quando o governo de São Paulo colocou na rua um projeto de parceria público-privada (PPP). O plano: uma linha de trem de 101 km ligando São Paulo e Campinas em 64 minutos, com uma parada em Jundiaí, no meio do caminho.

O investimento necessário: R$ 14,2 bilhões – sendo 60% (R$ 8,5 bilhões) em dinheiro do governo e 40% (R$ 5,7 bilhões) em capital privado, de quem pegasse a concessão.

CCR (hoje Motiva) era a favorita – já operava a Linha 4-Amarela do metrô de São Paulo e a rodovia dos Bandeirantes. Iria disputar a licitação do Intercidades em parceria com Alstom, da França, uma fornecedora tradicional do metrô paulistano. Mas não se candidataram.

A espanhola Acciona, que opera outra linha de São Paulo, a 6-Laranja, também foi cortejada pelo governo. Mas não entrou na disputa.

No fim, o leilão acabou com um único candidato: um consórcio internacional, que recebeu o nome TIC Trens.

São dois sócios. De um lado, com 60%, o Grupo Comporte. É a companhia de transportes terrestres da família Constantino (fundadora da Gol). Eles operam 7,2 mil ônibus em 13 Estados. Em 2023, vale notar, venceram a concessão do metrô de Belo Horizonte. 

Completa o consórcio, com os outros 40%, a CRRC, uma estatal chinesa. Trata-se da maior fabricante de trens do mundo – uma em cada cinco composições novas do planeta sai de alguma das fábricas dela.

E a presença dela faz toda a diferença. Com a CRRC dentro, a ligação entre São Paulo e Campinas vira mais do que uma parceria público-privada do Estado de São Paulo. Vira também um projeto da maior empresa do planeta: o governo da China.