Crônica de saiddelvaux

É muito difícil encontrar um adjetivo para qualificar o absurdo colocado em prática no Brasil em relação aos trens de passageiros.

Na minha dissertação de mestrado, atualizei os valores das tarifas vigentes entre as décadas de 1950 a 1970. Observei que os índices de reajuste foram muito inferiores aos índices da inflação, ou seja, os preços e consequentemente, os custos da RFFSA aumentavam e as suas receitas, obviamente, não.

O resultado óbvio foi a perda da capacidade de investimento da empresa. As tarifas ferroviárias eram controladas para assegurar o êxito da política de industrialização, inserida no processo de substituição de importações. Foram décadas de utilização das ferrovias e de exploração dos Ferroviários para atender interesses do capital.

Com o passar do tempo, apesar do empenho dos trabalhadores ferroviários, as condições das ferrovias foram se degradando e os serviços perderam a qualidade. Acidentes e atrasos foram se tornando mais frequentes. Na década de 1960 vem o ápice do atraso com o golpe militar. As baionetas tomam conta da gestão da economia e a ferrovia, já combalida, é submetida a toda a sorte de descalabros, desde projetos faraônicos a iniciativas que reduziram a malha, passando pela supressão de trens de passageiros e de serviços de carga geral e pequenas expedições.

A separação da RFFSA leia-se, a criação da CBTU, escancarava a subserviência do Estado aos interesses do capital. A saída encontrada foi devolver os trilhos aos “antigos donos”, que na realidade nunca deixaram de mandar. Eles levaram a efeito o seu intento. Eliminaram trechos indesejáveis, ficaram praticamente só com o filé. Isso depois de “ganhar a concessão”, justamente por ficar com o osso. Moral da história: A malha ferroviária ativa do Brasil tem, em 2024, menos de 15.000. Está do mesmo tamanho da malha de 1915.

São mais de 100 anos de atraso!

Não satisfeitos por destruir a ferrovia, querem agora aniquilar os ferroviários para completar o serviço.