Por Alcir Alves de Souza

Os trens Santa Cruz e Vera Cruz, também conhecidos como os trens de LUXO, da EFCB (6ª Divisão-Central, a partir de 1969), eram identificados pelos prefixos DP-3/4 e D-3/4. Compostos de carros de aço, os BUDD, que chegaram aqui, no Brasil, no ano de 1949, adquiridos à BUDD CORPORATION, nos Estados Unidos.

Ambos tinham a composição formada, quase sempre, por igual número de carros. Um carro bagageiro-correios, um carro-bar, um carro restaurante (com cozinheiro, auxiliar de cozinha e três comissárias, uma das quais supervisora), seis carros dormitórios (um com cabines individuais e cinco com cabines duplas) e um carro pullman (1ª Classe-76 poltronas).

A equipagem constituída de dois agentes de trem (um chefe e um ajudante) e seis camareiros. Os seus destinos eram, pela ordem, as cidades de SÃO PAULO (com terminal, até meado da década de 70, na Estação de Roosevelt (atual Estação do Brás) e, após esse tempo, na Estação da Luz) e de BELO HORIZONTE (com terminal na Estação de Belo Horizonte).

As duas composições passaram a circular a partir de março de 1950, partindo da   Estação D. Pedro II, precisamente da plataforma 12 (reservada aos trens interestaduais e intermunicipais). O de prefixo DP-3, às 23:10h, com chegada no destino (São Paulo), às 8:00h, e o de prefixo D-3, às 20:15h., com chegada no destino (Belo Horizonte), às 9:30h. Os trens de prefixo DP-4 e D-4, partiam, respectivamente, da Estação da Luz (São Paulo) e da Estação de Belo Horizonte (Minas Gerais), com destino à gare D. Pedro II (Rio de Janeiro), às 23:10h e 20:15h.

As viagens, em qualquer desses dois trens, apesar de as distâncias a percorrer não serem tão longas, consumiam muitas horas, mas eram superconfortáveis. A maioria dos usuários que utilizavam os trens DP-3 e DP-4 era “habitué”, formada de executivos, empreendedores, profissionais liberais, atores e atrizes de teatro e canais de televisão, parecia não se importar com o passar do tempo, apreciava o conforto que lhes era oferecido (barrestaurante com cardápio à “la carte”ar-condicionado, silêncio interior, leitos confortáveis). Havia até os que abriam mão de viajar em aviões da ponte aérea, para viajar nos referidos trens. Os trens Santa Cruz e Vera Cruz simbolizaram, por mais de quatro décadas, a pujança da saudosa ferrovia.

Infelizmente, após esse tempo, foram retirados de circulação. O trem Santa Cruz fez o seu último trajeto em 16/12/1991, e o trem Vera Cruz, que teve a sua circulação interrompida em 1976, voltando à circular em 1980 (de sexta-feira a domingo, e vice-versa), trafegou até 15/03/1990. O que restou desse valioso acervo, ainda hoje, pode ser encontrado exposto à ação do tempo, em desvios de diferentes estações, em cidades dos estados de São Paulo e Minas Gerais, reduzido a um amontoado de carros (vagões), já degradados, que mal lembram os dos tempos áureos, alguns corroídos e sucateados pela ação de vândalos. Aos que tiveram oportunidade de desfrutar do prazer de viajar em qualquer desses comboios, parabenizo e homenageio, certo de que guardam em suas memórias uma saudosa e inesquecível lembrança.  

Texto do ferroviário/advogado 

ALCIR ALVES DE SOUZA