Crônica do saudoso professor Victor José Ferreira, autor do livro “estórias do trem, uma viagem no folclore ferroviário”

Comentários de Fernando Abelha.

Victor José Ferreira em sua crônica, sem citar nomes, tem como personagem principal, o também saudoso coronel Carlos Aloísio Weber, então presidente da RFFSA, com quem tivemos a honra de trabalhar na condução do Departamento de Comunicação Empresarial e Marketing e como substituto eventual na Chefia do Gabinete da Presidência.

Weber, questionado por uns, mas admirado por muitos, deixou seu emblema na ferrovia, que passou a servir, em momento de crise, por nomeação do presidente da República Ernesto Geisel, que o retirou da direção o Batalhão de Engenharia Rodoviária, do Exército Brasileiro, que desbravou a Amazônia na construção da Rodovia Transamazônica, cujos trabalhos estavam em fase conclusiva.

Designado que fomos pelo engenheiro Nestor Rocha, então superintendente do Sistema Regional Centro, para organizar a área de Comunicação e Imprensa da Divisão Especial Subúrbios do Grande Rio, então instituída por decreto do presidente Ernesto Geisel, que preocupava-se com o crescente número de acidentes ferroviários, ceifando vidas de trabalhadores.

Estruturamos a área de comunicação e lá ficamos, por profissionalismo e por trabalhar ao lado do coronel Weber. Quando chegamos, era quase um acidente diariamente. Verdadeiro caos… Os trens de subúrbios dos cinco subsistemas da Central do Brasil e Leopoldina, em 1975, transportavam cerca de 300 mil passageiros por dia. Quando Weber deixou a Divisão Especial para assumir a presidência da RFFSA, em 1979, o transporte registrava 1 milhão e duzentos mil passageiros por dia útil. A partir daí foi caindo. Hoje não atinge aos 600 mil.

Eis a crônica de Vitor José Ferreira:

“Eram os anos de chumbo. Na RFFSA, um então presidente reproduzia a dureza do regime, com seu perfil centralizador e autoritário. Embora afável de trato e simpático, o homem não era fácil.

Tinha muitos méritos. Um deles, a agilidade decisória – sim, sim; não, não. Ele não enrolava ninguém, conforme atestava sua mesa de trabalho, sempre livre de processos, documentos e os célebres memorandos, tão numerosos na era pré-computador.

Tinha lá suas implicâncias e manias. Uma delas era com os psicólogos. Afirma, convicto:

– Não precisamos de psicólogos. O que eles nos dizem a gente poderá ouvir de entidades que baixam nos pais-de-santo, em terreiros de Umbanda. De graça …

A propósito, o diretor da então Viação Férrea Leste Brasileiro, sediada em Salvador, solicitou autorização para admitir dois psicólogos (autorizações para admitir profissionais no quadro de pessoal universitário estavam centralizadas com o presidente). Após resistir aos argumentos do diretor da Leste, em sua carta, e do superintendente de Pessoal, que com ele despachou o assunto, eis o despacho do homem:

“Autorizo, porém contínuo não acreditando em Psicologia”

Outro despacho que ficou conhecido, por revelar a postura autoritária do Presidente, aconteceu quando a área de Segurança do Trabalho solicitou autorização para admissão de engenheiros especializados e habilitados. Para tanto, o Chefe do Departamento de Assistência ao Ferroviário, ao qual a área estava subordinada, listou uma série de leis e decretos que determinavam a necessidade de completar o quadro de Engenheiros de Segurança do Trabalho. Depois de tomar ciência da legislação citada, o presidente despachou:

 “A lei manda assim, mas eu não quero. E daí”

 Para terminar, outro despacho seu. Em um longo memorando, o Chefe do Departamento solicitou autorização para que dois profissionais da Administração Geral, sediada no Rio de Janeiro, participassem de um congresso em Fortaleza, no Ceará. O presidente não queria autorizar, mas foi convencido pelo então Superintendente de Pessoal, de quem ele gostava e que conseguia amolecer suas resistências. Eis o despacho presidencial no memorando:

“Autorizo. Mas como gostam de fazer turismo, às custas da empresa”.