Obras avançam em Muçum, Trem dos Vales busca retomada parcial e região articula recursos federais para recompor os 46 quilômetros da malha turística atingida pelas enchentes

Por Filipe Faleiro

Fonte: A Hora ( Internet)

Ponte em Muçum está em reformas. Recursos partem do seguro da concessão e são feitas por empresa terceirizada contratada pela Rumo Logística. (Foto: Felipe Neitzke)

A Ferrovia do Trigo volta a registrar movimentação prática no Vale do Taquari quase dois anos após a enchente histórica de maio de 2024. Entre Muçum e Vespasiano Corrêa, máquinas, operários e estruturas provisórias começam a reaparecer ao longo dos trilhos destruídos pela força da água.

O movimento ainda está longe de representar a retomada integral da ferrovia. Mas simboliza a primeira intervenção no trecho turístico do Trem dos Vales desde a catástrofe climática.

A principal frente ocorre em Muçum, onde a Rumo Logística executa a recuperação de uma ponte ferroviária considerada estratégica para permitir o avanço das equipes responsáveis pela recomposição inicial da malha.

A obra é financiada por recursos do seguro da própria concessão ferroviária. Houve necessidade de disputa jurídica até a liberação do aporte para a intervenção pelo contrato da concessionária com a seguradora.

Presidente da Associação dos Municípios de Turismo da Região dos Vales (Amturvales), Rafael Fontana, afirma que a recuperação integra uma preparação maior para a retomada parcial do passeio turístico ferroviário.

“Esse é um trabalho preparatório para ampliação da reforma dos primeiros 16 quilômetros, para a volta da oferta de passeios turísticos entre Vespasiano Corrêa e Muçum.”

Segundo ele, a etapa atual concentra limpeza da via, retirada de entulhos e reorganização operacional do trecho considerado mais viável tecnicamente para uma retomada inicial.

No próximo dia 22 de maio, chega à região a primeira locomotiva que será usada para a retirada das cargas de terra acumuladas sobre os trilhos. Em alguns pontos, a destruição ainda impressiona. Dos 16 quilômetros incluídos na primeira etapa, sete tiveram a malha ferroviária arrancada pela inundação de 2024. Em determinados pontos, não restaram trilhos, dormentes ou base estrutural. O processo exige praticamente reconstrução integral da via férrea. 

Frente operacional

A recuperação em Muçum é tratada como peça inicial da logística da obra. Ex-prefeito do município e um dos integrantes do movimento regional em defesa da ferrovia, o pré-candidato a deputado estadual, Mateus Trojan afirma que a intervenção cria as condições para o avanço das demais etapas.

“A primeira obra da reforma da ferrovia, em Muçum, está bem encaminhada e logo estará pronta”.

Viaduto em Dois Lajeados

Outra frente considerada estratégica está no V-17, em Dois Lajeados. Alguns pilares foram deslocados pela força da água. “Se trata de uma obra muito complexa e ainda não sabemos como será feita, se será pelo seguro ou não”, afirma o ex-prefeito de Muçum.

A passagem integra o trecho completo do Trem dos Vales, com 46 quilômetros entre Guaporé e Muçum. Essa seria uma segunda etapa da recomposição da malha regional. Pelo grau de avarias, a escolha do segmento entre Muçum e Vespasiano Corrêa ocorreu por critérios operacionais e financeiros.

A partir de diagnóstico sobre o impacto da inundação, o trecho concentra menor complexidade técnica quando comparado ao restante da ferrovia e permite organizar um projeto-piloto de retomada turística.

A estratégia regional é usar essa primeira etapa como modelo operacional para a expansão futura da recomposição ferroviária. Entre 2019 e 2023, mais de 112 mil passageiros fizeram o passeio ferroviário, consolidando o trem como um dos principais produtos turísticos do interior gaúcho.
A paralisação da operação atingiu restaurantes, hotéis, vinícolas, agroindústrias familiares e pequenos negócios ligados ao fluxo de visitantes.

Projeto de ampliar o passeio

Enquanto a recuperação inicial avança, municípios da região articulam um projeto maior junto ao governo federal. A proposta prevê a recomposição integral dos 46 quilômetros da ferrovia turística e a inclusão de um novo eixo ferroviário envolvendo Santa Tereza.

Prefeita do município, Gisele Caumo afirma que a região trabalha em uma nova rodada de negociações em Brasília.

“Teremos nos próximos dias uma reunião com a Defesa Civil para buscar a reforma total do trecho de 46 quilômetros do Trem dos Vales, e também com a proposta de incluir Santa Tereza.”

A reunião está prevista para o dia 25 de maio, envolvendo representantes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Defesa Civil Nacional e Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário.

O objetivo é discutir a viabilidade técnica e financeira da ampliação do projeto. “O orçamento previsto está entre R$ 60 milhões a R$ 100 milhões. Aguardamos para saber se o viaduto de Dois Lajeados estará coberto pelo seguro da Rumo. Se eles fizerem, é possível reduzir em até metade o investimento federal no trecho regional”, destaca.

A proposta regional tenta enquadrar a recuperação da ferrovia como recomposição de infraestrutura atingida pela catástrofe climática de 2024.

Turismo e desenvolvimento

Dentro da Amturvales, os debates sobre a ferrovia avançam sobre o conceito de patrimônio histórico e produto turístico isolado. A leitura regional passou a incorporar a malha ferroviária como ativo econômico e territorial, destaca o presidente Rafael Fontana.

Além do Trem dos Vales tradicional, o projeto em debate prevê novos roteiros integrando gastronomia, vinhos e turismo cultural. Nesta defesa, a prefeita Gisele Caumo realça que o intuito é criar a integração entre regiões do Vale e Serra, com a criação do roteiro do Pão e do Vinho para o eixo ferroviário.

De acordo com ela, o intuito da região é demonstrar ao governo federal que a ferrovia tem impacto direto sobre geração de renda, circulação turística e fortalecimento econômico de pequenos municípios.

O presidente da Amturvales destaca: “a intenção é transformar a reconstrução da ferrovia em um dos símbolos da retomada regional após as enchentes”, frisa Fontana.

Ferrovia do Trigo

Trecho: Roca Sales a Passo Fundo
Situação: fora da prioridade para cargas
Uso regional defendido: turismo ferroviário

No Vale do Taquari

Trecho em recuperação: Vespasiano Corrêa a Muçum
Extensão: 16 km
Investimento: R$ 6 milhões
Origem: governo do Estado
Coordenação: Amturvales
Objetivos: retomar parcialmente o Trem dos Vales; reorganizar operação turística; criar base para recuperação dos 46 km completos

Nova proposta

  • Incluir Santa Tereza
  • Criar novos roteiros ligados ao turismo, gastronomia e vinho
  • Investimento estimado: R$ 60 milhões a R$ 100 milhões