A Argentina tenta recuperar 14 mil km de trilhos em 9 frentes, apostando em modelo que pode exigir até 7 vezes mais trens para transportar a mesma carga.
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
om informações do site Transporte Moderno e CNN Brasil
O governo argentino propõe dividir sua malha ferroviária em nove concessões por três corredores logísticos. O modelo de “acesso aberto” gerou ceticismo de grandes investidores, como o Grupo México, que exige mudanças radicais nas regras para participar.
A infraestrutura de transportes na Argentina atravessa um momento decisivo com a proposta de um novo marco para o setor de cargas. Ao contrário do Brasil, que opera com concessões centralizadas, o governo argentino planeja fatiar sua malha em nove frentes distintas através de três corredores logísticos.
O objetivo é reduzir a hegemonia do asfalto, que hoje domina 95% do transporte de mercadorias no país. No entanto, a estratégia de “acesso aberto” gera incertezas sobre a eficiência, visto que estudos apontam que modelos fragmentados podem exigir até sete vezes mais trens do que sistemas integrados para movimentar a mesma carga.
O contraste com a experiência da malha ferroviária brasileira
A discussão sobre os trilhos na Argentina ganha contornos mais nítidos quando comparada ao cenário brasileiro. No Brasil, empresas como VLI, Rumo e MRS gerenciam de forma exclusiva tanto a via quanto os vagões, o que garante previsibilidade para grandes aportes financeiros.
Vicente Abate, presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer), reforça a solidez do formato adotado no território brasileiro:
“Existe no Brasil um modelo consagrado de transporte ferroviário de cargas, chamado vertical, em que a via permanente é mantida e operada por uma concessionária, que recebe a concessão da União por determinado tempo, renovável por igual período.”
Abate pondera que, embora o modelo horizontal não tenha prosperado no Brasil, ele pode encontrar espaço em solo argentino devido a fatores logísticos regionais. Segundo o executivo:
“Na Argentina, apesar das divergências, o modelo horizontal pode ser aplicado em função de características específicas da malha, como cargas por eixo menores e distâncias mais curtas.”
Capital estrangeiro impõe condições severas na Argentina
Apesar das intenções do Ministério da Desregulação de promover a concorrência, o projeto enfrenta o ceticismo de grandes investidores. O Grupo México, principal interessado em injetar cerca de US$ 3 bilhões na reconstrução da infraestrutura portenha, condicionou sua entrada a uma reformulação completa das regras.
O governo argentino propõe dividir sua malha ferroviária em nove concessões por três corredores logísticos. O modelo de “acesso aberto” gerou ceticismo de grandes investidores, como o Grupo México, que exige mudanças radicais nas regras para participar. Imagem: Canva.
O CEO da companhia, Fernando López, foi enfático ao rejeitar o atual desenho das licitações: “Se não houver uma mudança radical na forma como a licitação está estruturada, não vamos participar.”
Para esses grandes grupos, o sistema de livre acesso dificulta a coordenação logística e dilui o retorno sobre o capital investido. Além disso, o consórcio de exportadores de grãos — que detém 85% do fluxo de carga da estatal Argentina — mantém uma postura de cautela, aguardando normas regulatórias mais claras.
O diagnóstico da malha e a urgência do plano
A necessidade de uma reforma é evidenciada pelo estado crítico da rede controlada pela estatal Trenes Argentinos Cargas.
Atualmente, o país possui:
Federico Sturzenegger, ministro da Desregulação, acredita que a abertura do sistema é o caminho para baratear custos. Na mesma linha, Alejandro Núñez, presidente da estatal ferroviária, afirma que a proposta pode ampliar a eficiência do sistema.
Riscos de uma operação fragmentada na Argentina
A grande dúvida que paira sobre a Argentina é se o modelo de “Open Access” conseguirá garantir a fluidez necessária. A divisão entre quem cuida do trilho e quem opera o trem pode elevar os custos de coordenação e criar gargalos nos terminais.
Assim, o sucesso da proposta dependerá de um marco regulatório que resolva conflitos de tráfego entre diferentes operadoras.
Sem essa segurança, o plano corre o risco de não atrair os recursos necessários para modernizar uma frota e uma sinalização que hoje impedem o país de competir de igual para igual no mercado logístico global.
