O trem

Por Adonias Filho

“Foi no tempo em que, vindo dos agrestes povo chegava ao arruado – que arruado era Sequeiro – e ali aguardava o trem-de-ferro. Isso, que parece ontem, já beira aí cinquenta anos de acontecido. Lá para dentro, léguas abaixo no roteiro do rio, com estradas apenas de tropa, nasci escutando o silêncio das matas.

 Verdade é verdade e por isso eu digo que, menino aí pelos cinco anos, invejava o pai quando ia tomar o trem, no Sequeiro, com destino a Ilhéus.

– Ele vai tomar o trem – informava mamãe.

O trem nos parecia, a mim e meus irmãos, a mais distante e a melhor de todas as coisas do mundo. O pai sempre voltava carregado de doces e brinquedos. Eu, por mim mesmo, não tinha dúvida: aquilo se apanhava, aos montes, nos vagões do trem. A vontade e o sonho, pois, era um dia chegar ao Sequeiro, ver o trem, e nele partir para cortar as terras do cacau. Quanto mais que – a mamãe dizia – o trem parava dentro de Ilhéus, ao lado do mar, aquele mundo de água eternamente condenado a bater nos rochedos e nas praias!

Ela, mamãe, descrevia a cidade e o mar. O roteiro que erguia, porém, se concentrava no trem. Sentados estamos nos malotes de couro, é quase azulada a luz do candeeiro, o pai na rede, estrelada a noite do lado de fora. E a voz de mamãe recria os objetos, imita os sons, de tal forma reanima a vida que tudo vê e escuta. A máquina fervendo, os apitos invadindo as serras e as plantações, o barulho das rodas nos trilhos.

– Você está sentado aí, aí como está agora, e as árvores correm no campo.

A cidade devia ser fantástica e maravilho o mar. Mas, muito maior que o mar e a cidade – nós jurávamos – era o trem que, uma vez ao mês, levava e trazia o pai. Uma manhã, o irmão me segurou no braço, disse:

– Eu ouvi o grito do trem.

– Onde?

– Não sei, não sei, parece que vem das matas.

Esperamos que o trem chegasse, rompendo a selva, uivando para espantar as onças e as cobras, espécie de dragão de ferro. Logo à noite, porém, mamãe explicou que o trem não era assim. Muito diferente, pois não! Tentou um desenho – mamãe! – em papel de embrulho e a figura nos pareceu um lagarto, E, com aquela aparência que era a sua, cercada pelos filhos, contou a viagem que fizera, de Ilhéus a Sequeiro, quando se casara. Foi então que, talvez sem querer, falou no navio. O pai foi buscá-la em Salvador, e em ilhéus chegara de navio.

– Navio, mamãe, o trem do mar? – eu indaguei.

Tudo ela conhecia, mamãe, e tanto conhecia tudo que conhecia a cidade e o mar, o navio e o trem. Lembro-me de quando percebi a sua primeira tristeza. O pai sairia para pescar no rio e nós – ela e os filhos – ficamos no quintal.

– Na outra semana – ela disse – vocês andarão de trem.

– Vamos ver o trem? – perguntamos.

– Sim com o pai.

E foi então que, em seus pequenos olhos úmidos, eu vi a tristeza pela primeira vez. Era como se ela sentisse pena de nós. Ela sabia, mamãe, que a realidade não valia a nossa imaginação”.

Do livro “Pequena Antologia do Trem” do jornalista ferroviário Laís Costa Velho. Editado pela RFFSA em 1974.