Crônica de Fernando Abelha
A propósito dos momentos que vivemos, quando os valores humanos são renegados a um plano inferior, rejeitados por uma sociedade cambaleante, vítima de descalabros que deixam a vida cada vez mais banalizada nas mãos de meliantes, ao se imporem à segurança pública. Força policial que está notadamente perdida pelo despreparo, que a leva, vez por outra, a cometer ações impensadas contra inocentes, envolvida muitas vezes, pela prática da mesquinha e maldita corrupção ou, o que é pior, tomada pelo medo do confronto, vítima das covardes tocaias nos becos das comunidades.
Vejamos ainda: os políticos endoidecidos por desmandos inacreditáveis, nunca vistos por nossa sociedade, em dimensões e pluralidade. A economia abalada sem encontrar o caminho da sua recuperação; a anarquia predominando nos poderes da República; e porque não dizer, a nossa classe de bravos ferroviários, na sua grande maioria acima dos 60 anos, desprezada pelos “desmemoriados”, que fingem desconhecê-la. Inacreditável é, também, o que fizeram com nossas estradas de ferro…
Contaminados por tantos descalabros, mais vale a reflexão de encontrar a felicidade nas pequenas coisas, conquistadas pela sabedoria que somente a idade nos proporciona… Quando a razão cede ao sonho da imaginação ou o saudosismo nos faz retornar ao sentimento dos momentos pretéritos, nada melhor do que nos aprazarmos através da sábia filosofia do cotidiano que desfrutamos.
A internet nos oferece várias pesquisas que demonstram o quanto mais velho somos, mais felizes poderemos ser. Mesmo registrando a preocupação de alguns, pelo fato de se sentirem entregues e desencorajados, em face da anarquia que nos domina. Para muitos a segurança de espírito que os anos de vida nos transferem é o melhor penhor para nossas atitudes no decorrer desta fase da vida, somente abalada quando, infelizmente, a saúde nos falta. As pesquisas registram os medos, as intolerâncias, mas, também, as realizações pessoais de segurança íntima, lastreadas na experiência adquirida através do tempo vivido o que valoriza os significados do envelhecimento no mundo moderno.
O que aprendemos de mais importante: em primeiro lugar, a liberdade de dizer não, sem a necessidade de preâmbulos. É a conquista do livre arbítrio ausente do medo de não agradar, livre da preocupação com a opinião dos outros, do temor de ser diferente. Como muitos defendem: é fundamental para a felicidade, adotar a filosofia do “nem tô ai”, de vez que, quando mais jovens, sempre nos colocamos em segundo plano e buscamos satisfazer os desejos dos filhos, cônjuges, pais, amigos e patrões. Mais velhos, e com a certeza de que o tempo é um bem precioso de sabedorias e coragem de ser, percebemos que o dizer não, várias vezes se posiciona melhor do que a simples, cômoda ou até mesmo a covarde prática do silêncio, para não desagradar ao nosso interlocutor.
Também descobrimos que a comparação produz infelicidade. Aprendemos que não devemos nos comparar com ninguém e, também, não invejar ao semelhante. Somente a maturidade pode nos dar a segurança necessária para sermos nós mesmos e não querer ser diferente do que somos. Não há a necessidade de se levar tudo tão a sério. Muitos sofrimentos inúteis podem ser evitados ao renegarmos a intolerância e darmos boas risadas. Descobrir que podemos resgatar a criança que ainda existe dentro de nós… e assim valorizar a simplicidade e o bom humor, o dom de servir ao semelhante. Encontrarmos na velhice esta felicidade que supomos e tanto procuramos na adolescência e pelo caminhar vida afora. Portanto, sejamos felizes… Diz o ditado popular: “Feliz é aquele que reconhece o perfume do que perdera”…

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