Colaboração de Alexandre Julio Lopos de Almeida, vice – presidente da AENFER

– O Fator Humano como Escudo –

A operação de uma malha ferroviária não é composta apenas por trilhos, locomotivas e vagões; ela é, fundamentalmente, um binômio indissociável entre investimento técnico e valorização da mão de obra. Quando uma empresa apresenta falhas, a tendência simplista é culpar a ponta da linha — o trabalhador. No entanto, usar a mão de obra como bode expiatório para a falta de investimento é como culpar a vaca pela baixa produção de leite, enquanto o administrador nega o pasto, a vacina e o cuidado básico.

A Tragédia Evitada pelo Conhecimento

 No cenário atual da Supervia, os números são alarmantes. Estamos diante de uma tragédia anunciada. Se um possível grave acidente ocorrer amanhã, que ninguém ouse chamar de “Cisne Negro”. Na teoria da probabilidade, o Cisne Negro é o evento imprevisível; aqui, o desastre está desenhado em cada quilômetro com trilho partido, em cada junta isolante, na rede aérea precária, na via permanente degradada, no material rodante precário, no licenciamento temerário.

 Com cerca de 85% da sinalização indisponível, operando com apenas 15% de confiabilidade sistêmica, o risco de perda de vidas humanas — a carga mais preciosa da ferrovia — é real e iminente nesse cenário e já teria, em outras circunstâncias, resultado em catástrofes irreparáveis para a vida humana.

A Barreira contra o Sobrenatural: O Pessoal do “Chão”

Se o pior ainda não aconteceu, não foi por sorte ou intervenção divina ou sobrenatural. Foi pela qualidade, conhecimento profundo e dedicação do pessoal local. São operários, técnicos e engenheiros que:

· Conhecem cada palmo das deficiências do sistema;

 · Compensam a falta de tecnologia com experiência e vigilância dobrada;

· Atuam diariamente no limite para garantir que a precariedade não se transforme em luto. São esses profissionais que convivem diariamente com:

 · Via permanente muito aquém do mínimo desejável, com grandes carências de materiais e serviços:

 · Material rodante operando no limite da exaustão técnica;

 · Rede Aérea obsoleta e com graves problemas devido ao não investimento na substituição de seus componentes, além das seccionadoras e subestações;

· Sistema de Segurança dos trens, estações e demais instalações fixas;

Um Apelo à Nova Gestão

 Com a chegada do Consórcio Nova Via Mobilidade, composto pelo Grupo Barraqueiro — um dos maiores nomes da logística mundial — e a MPE Engenharia e Serviços, abre-se uma janela de esperança. No entanto, o sucesso dessa nova etapa não virá apenas de novos e urgentes aportes financeiros, mas também do olhar atento a quem mantém a roda girando hoje.

 “A competência técnica desses profissionais foi o que impediu o colapso total. Eles não são o problema, eles são a solução e o maior ativo que a nova concessionária está recebendo.” É preciso que o novo comando entenda que a degradação do sistema não reflete a capacidade do trabalhador, mas sim a escassez de recursos a que foi submetido. Investir na requalificação, no bem-estar e, sobretudo, ouvir quem está no “chão da ferrovia” é o único caminho para transformar os preocupantes 15% de confiabilidade em 100% de plena operação e confiabilidade do sistema operacional.

 Esses trabalhadores conhecem cada deficiência e fazem o impossível para compensar, com o braço e com o saber, o que o capital não proveu. Eles são o último escudo entre a precariedade do sistema e a vida do passageiro.

 Com a transição para esse novo Consórcio controlador, o apelo é direto: olhem com carinho e urgência para esse pessoal. O novo comando não está recebendo apenas uma concessão degradada; está recebendo um corpo técnico que foi capaz de sustentar o insustentável. A segurança ferroviária hoje não se deve aos investimentos que não vieram, mas ao coração de quem não desistiu da ferrovia.

 Ignorar essa mão de obra ou culpá-la pelos problemas estruturais seria o erro final. A reconstrução do Trem Urbano do Rio de Janeiro deve começar pelo reconhecimento de que esses profissionais não são o problema, mas os únicos responsáveis por essa tragédia ainda não ter se concretizado.

A segurança ferroviária é feita de aço e concreto, mas é mantida pelo coração e pelo saber de quem não desistiu do sistema.

A Diretoria