Escrito por Valdemar Medeiros

Capaz de lançar mísseis nucleares de mais de 10 mil km de alcance a partir de trens camuflados, o RT-23 Molodets transformou 120 mil quilômetros de ferrovias soviéticas em plataformas móveis de ataque estratégico

O RT-23 Molodets transformou 120 mil km de ferrovias soviéticas em plataformas nucleares móveis, lançando mísseis de mais de 10 mil km de alcance a partir de trens camuflados.

Durante a Guerra Fria, a maior obsessão das superpotências não era apenas possuir armas nucleares, mas garantir que elas sobrevivessem a um primeiro ataque. Se os silos fossem destruídos e as bases aéreas neutralizadas, o que restaria para retaliar? Foi dessa lógica que nasceu uma das armas mais difíceis de rastrear já criadas: o RT-23 Molodets, um míssil balístico intercontinental lançado a partir de trens comuns, escondidos no vasto sistema ferroviário da União Soviética.

Mais do que um míssil, o Molodets transformou a própria infraestrutura civil em um campo nuclear móvel, diluindo o poder de ataque em milhares de quilômetros de trilhos.

A lógica da dissuasão em movimento

Nos anos 1970 e 1980, os Estados Unidos investiam pesadamente em satélites espiões capazes de localizar silos fixos e bases estratégicas. A resposta soviética foi simples e radical: se não é possível esconder um alvo fixo, transforme-o em algo que nunca pare de se mover.

A União Soviética possuía uma das maiores malhas ferroviárias do planeta, com cerca de 120 mil quilômetros de trilhos. Integrar armas nucleares a esse sistema significava criar milhares de possíveis pontos de lançamento, tornando qualquer tentativa de neutralização preventiva praticamente impossível.

Um míssil intercontinental disfarçado de vagão comum

O RT-23 Molodets, conhecido no Ocidente como SS-24 Scalpel, era um míssil balístico intercontinental de combustível sólido, projetado para ser lançado diretamente de vagões ferroviários reforçados.

Tecnicamente, o míssil impressionava:

• Alcance estimado superior a 10.000 km
• Peso aproximado de 104 toneladas
• Capacidade de carregar até 10 ogivas nucleares MIRV, cada uma direcionável a um alvo diferente
• Precisão suficiente para atingir alvos estratégicos a milhares de quilômetros de distância

Cada trem transportava vários vagões especiais, mas externamente se parecia com um comboio de carga comum, indistinguível de milhares de outros que cruzavam o território soviético diariamente.

Lançamento nuclear a partir dos trilhos

O sistema de lançamento era um feito de engenharia extrema. Ao receber a ordem, o trem podia parar em praticamente qualquer trecho adequado da ferrovia. O vagão se estabilizava, o teto se abria e o míssil era erguido à posição vertical antes do disparo.

Tudo isso podia ser feito sem necessidade de infraestrutura fixa, sem bases permanentes e sem deixar sinais evidentes para satélites inimigos até o último momento.

Na prática, isso significava que qualquer ponto da rede ferroviária soviética podia se tornar um local de lançamento nuclear.

Mobilidade como arma estratégica

O maior trunfo do RT-23 Molodets não era apenas o alcance, mas a imprevisibilidade. Os trens permaneciam em constante movimento, seguindo rotas variadas, misturando-se ao tráfego ferroviário regular e parando apenas em áreas previamente estudadas para lançamento.

Mesmo que um satélite identificasse um trem suspeito, a confirmação seria difícil. Atacar um comboio civil errado poderia significar escalar um conflito nuclear por engano, algo que tornava o sistema ainda mais eficaz como instrumento de dissuasão.

Tripulação, autonomia e sobrevivência

Cada trem nuclear era operado por uma tripulação militar altamente treinada, vivendo em regime quase autossuficiente dentro do próprio comboio. Havia vagões de comando, comunicações, energia e suporte vital.

O conceito previa que os trens pudessem operar por longos períodos sem retornar a bases, mantendo a capacidade de ataque mesmo após um primeiro golpe nuclear inimigo.

O auge e o início do fim

O RT-23 Molodets entrou em operação no final dos anos 1980, justamente quando a Guerra Fria se aproximava de seu desfecho. No auge, a União Soviética manteve vários regimentos ferroviários armados, cada um com múltiplos mísseis prontos para lançamento.

Com o colapso da URSS e a assinatura de tratados de redução de armas estratégicas, como o START II, os mísseis ferroviários passaram a ser vistos como excessivamente provocativos e caros de manter.

Ao longo dos anos 2000, os últimos sistemas Molodets foram desativados e desmontados, encerrando oficialmente a era dos trens nucleares soviéticos.

Um conceito que ainda assombra estrategistas

Apesar de aposentado, o conceito nunca morreu. A ideia de armas estratégicas móveis, ocultas em infraestrutura civil, continua sendo estudada e reaparece periodicamente em debates militares modernos, inclusive na Rússia e na China.

O RT-23 Molodets permanece como um dos exemplos mais extremos de como a engenharia militar da Guerra Fria levou a lógica da dissuasão ao limite máximo: se esconder uma arma não é suficiente, esconda-a dentro do próprio país em movimento constante