Colaboração do ferroviário e jornalista Lício Araújo

 Filho, neto e bisneto de administradores de ferrovias, Brian Neele (como era conhecido) nasceu em Stockport, Condado de Cheshire, na Inglaterra, em 01 de abril de 1895. Era o primeiro de cinco filhos de Charles Edward Neele e Mabel Lily Fraser Neele, três homens e duas mulheres. Visando seguir os passos de seus progenitores, formou-se engenheiro e, não logrando ser aceito como oficial do Exército Britânico na Índia, por precisar de óculos, veio para a Argentina, em 1913, a convite de tio que era diretor-presidente dos Ferrocariles Centrales de Argentina.

     Foi de pronto incumbido de trabalhar na mais remota das estações daquela rede, devendo, em 6 meses, apresentar-se novamente ao tio tendo aprendido espanhol e estando versado na administração e gerência de vias férreas. Em 1916, portou-se voluntário para ingressar no exército inglês, indo lutar nas trincheiras no norte da França, até o fim, como engenheiro militar, sendo ferido sem maior gravidade.

     Retornando à Argentina e aos Ferrocariles Centrales, coube-lhe atuar já na sede, em Buenos Aires, como administrador do sistema FCA. Pouco depois, casou-se pela primeira vez, com Corina, uma anglo-argentina. No trabalho, sucessivas promoções o levaram ao topo daquela empresa, só não assumindo a presidência por ter aceito a presidência da empresa congênere no Uruguai, em 1928, que estava com sérios problemas de gestão.

     Em 1930, foi destinado a ocupar presidência da Leopoldina Railway, no Rio. De novo, havia uma conjuntura problemática de administração, que logrou rapidamente corrigir. Em seguida, para além de gerir a empresa, dedicou-se a expandir a rede, sobretudo na Zona da Mata mineira, inclusive até Vitória, no Espírito Santo. Sua gestão prolongou-se até 1951, quando foi assinada a compra da Leopoldina Railway pelo Governo brasileiro, mas Brian Neele permaneceu no cargo até 1955, para assegurar uma tranquila passagem de serviço. Com este intuíto, deixou pronto, como exigido no contrato de venda, plano de eletrificação de toda a rede da Laopoldina Railway, com recursos próprios: após sua saída da empresa este projeto virou letra morta.

     Paralelamente, tinha a seu cargo administrar a Companhia Cantareira de Navegação (leia-se barcas), que efetuava o transporte de passageiros, veículos e carga entre a então Capital do Brasil e Niterói, que era a capital do Estado do Rio de Janeiro. Ademais, sempre pelos donos do grupo inglês, geria a Companhia Suburbana de Imóveis, esta detentora de grandes áreas de terreno às margens do que viria ser a Avenida Brasil.

     Pouco antes da II Guerra mundial, divorciou-se da Corina para casar com Ethel Marie Neele (née Bodine), com quem teve um filho, o hoje Embaixador Brian Michael Fraser Neele.

     Em 1955, com a entrega das empresas do grupo Leopoldina Railway ao Governo brasileiro e por não mais desejar retornar ao Reino Unido, aceitou vários convites para permanecer ativo – sempre em cargos de presidência (Banco Monteiro de Castro) ou Diretoria (Blemco, Tintas Internacional, Cimento Tupi …), só vindo a deixar de ir a escritório quando atingiu a idade de 90 anos.

     O casal Neele residiu em diversas casas ou apartamentos alugados, no Rio de Janeiro, gozando de excelente penetração nos meios sociais cariocas – entre os amigos brasileiros mais chegados, citam-se inclusive o próprio Presidente Getúlio Vargas e sua família (D. Alzira e o Almte. Ernani do Amaral Peixoto), como também os Embaixadores Maurício Nabuco, Leitão da Cunha e Edmundo Barbosa da Silva, o economista Eugênio Gudin, entre muitas outras personalidades do Rio de Janeiro.

      Em 1942, vendeu extensa área em Teresópolis e adquiriu fazenda no litoral fluminense, em Jaconé/Ponta Negra, Município de Maricá, onde a partir de 1977 residiria até falecer, aos 93 anos, em 1988.

     Gostava de viajar, de esquiar na neve, de ler e de jogar cartas. Na fazenda, como no Rio, sempre teve cães de diversas raças e origens (e esta sua predileção por cães levou sua esposa Ethel Neele a ser, por 5 anos, Presidente do Kennel Club brasileiro). Como esportes prediletos, jogava golfe e pescava. Em 1958, foi operado com êxito de câncer nas cordas vocais, tendo a força e vontade de apreender a falar novamente, sem auxílio de apoio mecânico, mas abriu mão de suas cotas no Country Club e no Gávea Golf & Country Club, suprindo este convívio dos clubes com considerável atividade social em sua casa e na fazenda.