Por Fernando Abelha

Não precisa ser ferroviário para viver contundente humilhação ao nos depararmos, por toda cidade do Rio de Janeiro, com a estranha ocupação ou total abandono das edificações que, em passado recente, serviam ao sistema ferroviário federal como um todo, através das Estradas de Ferro Central do Brasil e Leopoldina.

Após a inoportuna, intempestiva e desastrosa privatização da Rede Ferroviária Federal S.A, o Rio de Janeiro assiste combalido o desprezo e desdém com que as concessionárias, governos federal, estadual e municipal observam inertes o desmoronamento das edificações que abrigaram o importante e indispensável modal ferroviário.

Assim, ao adentrar à cidade, através da Avenida Francisco Bicalho, seguimento da Avenida Brasil, o carioca, visitante de outro Estado da Federação ou, até mesmo, vindo do exterior através do Aeroporto Tom Jobim, se depara com a vergonha estampada pela Estação Barão de Mauá, prédio majestoso que servira como terminal ferroviário aos trens da Estrada de Ferro Leopoldina destinados aos subúrbios, no transporte de operários de vários municípios do Grande Rio. A mesma centenária estação recebia passageiros de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo, além de toda a Zona da Mata Mineira e do Norte Fluminense onde se destacam as cidades de Campos dos Goitacases e Macaé, hoje consideradas como as capitais do petróleo brasileiro. A Estação Barão de Mauá dá pena de se ver. Suas paredes pichadas por vândalos. A marquise principal amparada por escoras de madeira, a gare e o prédio invadido por vândalos viciados e traficantes de crack. Todo o gradil interno, peças, verdadeiras obras de arte, em metal e bronze, foram  furtadas ou estão danificadas. As plataformas cobertas de mato e roedores que infestam os prédios vizinhos. Os escritórios invadidos por marginais com a documentação remanescente do Serviço Social das Estradas de erro – SESEF e da Associação dos Engenheiros da Estrada de Ferro Leopoldina, espalhada pelo chão. Tudo à vontade dos desocupados que surrupiaram o que puderam carregar.

Como se não bastasse, se o visitante seguir pela famosa avenida Presidente Vargas irá se deparar com o não menos majestoso edifício D. Pedro II, que fora sede da Estrada de Ferro Central do Brasil, ferrovia que na primeira república detinha o poder de um Ministério. A estação D. Pedro II, hoje, é ocupada pela Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. Lá funcionam Delegacias Distritais, e outros órgãos da Segurança Pública que nada têm a ver com a história ferroviária. Algumas salas foram transformadas em prisão de meliantes. Triste destinação que deram a famosa estação que chegou a ser marco de visualização turística através de cartões postais da cidade do Rio de Janeiro enviados ao resto do mundo. Também dali saiam diariamente várias composições para Barra do Piraí, São Paulo e Belo Horizonte ligando, assim o importante triangulo econômico Rio, Belo Horizonte e São Paulo. Hoje, pequena parte de suas linhas de longo percurso estão apenas destinadas ao transporte do interesse da concessionária MRS: minério e produtos acabados de siderurgia. Pelo ramal de São Paulo trafega apenas uma composição alguns dias da semana para atender com minério proveniente de MG à siderúrgica COSIPA, enquanto que a bilionária Ferrovia do Aço e a chamada Linha do Centro estão subutilizadas. Passageiros nem pensar… As rodovias General Dutra e a BR 101 que demanda ao Norte fluminense e ao Nordeste brasileiro, estão repletas de caminhões com três ou mais eixos e reboques, que danificam o leito e provocam desastres com perdas de preciosas vidas.

A gare da Central do Brasil por onde transitam diariamente cerca de 700 mil passageiros –  no período da RFFSA chegou a transportar 1.200 milhão por dia útil oriundos dos subúrbios da Central do Brasil e da Leopoldina – hoje operacionalizada pela Supervia (leia-se Odebrecht) foi transformada em um verdadeiro mercado livre, com dezenas stands, dos mais variados produtos mercadológicos, espaços alugados pela Supervia para ampliar a sua renda e que pouco espaço deixa aos passageiros que demandam aos subúrbios do RJ e aos municípios fluminenses que formam o Grande Rio.

Ao lado da Estação D. Pedro II, o prédio que abrigou a Administração Geral da extinta RFFSA, está hoje ocupado pela inventariança da RFFSA, CBTU, VALEC, além de outros órgãos do governo federal. Pelo menos este não virou antro de bandidos como Barão de Mauá, ou teve a sua ocupação desordenada pela Secretaria de Segurança do Estado.

No Engenho de Dentro, contíguo ao Estádio Nilton Santos (Engenhão) o Museu Ferroviário Federal onde, acreditamos, ainda estejam as principais relíquias da história sobre os trilhos em nosso país, está fechado e abandonado deixando, assim, de cumprir o seu papel de oferecer um ambiente cultural à população, notadamente aos estudantes que lá chegam e têm de retornar.

Estes descalabros são o que restou da impensada e catastrófica concessão das ferrovias, iniciada pelo senhor Fernando Henrique Cardoso e consumada por Luiz Inácio Lula da Silva. O que mais entristece é que em nosso país, os gestores, do governo pouco ou nada respondem por sua incompetência e desmando e corrpção.

Mesmo assim eu ainda acredito em um Brasil justo, digno e próspero para meus netos e bisneta.