Comentários de Fernando Abelha
A partir do domingo, 25 de setembro, e pelos demais subsequentes, começamos a publicar em capítulos, mais denúncias documentadas com fotos, sobre o desmando que vêm sendo submetidos os trechos ferroviários concedidos à iniciativa privada pelos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, com incontestável ação de lesa à pátria praticada, pela total omissão dos órgãos fiscalizadores, do patrimônio da extinta Rede Ferroviária Federa S/A ao descumprimento contratual das empresas que obtiveram as concessões.
O jornalista André Tenuta, da ONGtrem, enviou documento ao Procurador da República no Estado de Minas Gerais, Fernando Martins, denunciando o descaso das autoridades para com os trens e ferrovias da extinta Rede Ferroviária Federal, em Minas Gerais.
Colaboração do jornalista e ferroviário Luiz Carlos Vaz, RS, que assim se pronunciou: – “Achei muito bom. Vale a pena a sua leitura. Fartamente ilustrado com fotos muito interessantes do sucateamento da frota brasileira e o aproveitamento da “velharia” em outros países”.
Eis a íntegra do documento em sua terceira parte:

…ANÁLISE E ALTERNATIVAS
Não houve avaliação alguma por tipo de vagões, das possibilidades reais de empoçamento de água em função de modelos e condições, das possibilidades e alternativas de soluções antiempoçamentos, e muito menos nada disso foi cruzado com o valor, com o potencial de recuperação e de retorno ao uso existente no material estacionado, nem foi verificado qual desse material se destina a algum projeto já em andamento.
Igualmente não foram considerados alguns elementos importantes de serem levados em consideração diante desta situação, e que facilitam o controle alternativo dos possíveis focos existentes neste material férreo.
Inicialmente, deve ser lembrado que os depósitos ou pátios onde estão estacionados este material SÃO MUITO POUCOS. Ou seja, não temos vagões estacionados a cada esquina pelas cidades afora, em centenas de cidades. Nada disso. Contam-se nos dedos os locais onde existem pátios, mesmo em Estados grandes como Minas Gerais, que junto com São Paulo, possuem o maior número de depósitos. Eles estão perfeitamente mapeados. Em Minas talvez cheguem a uma dezena de lugares. Portanto, eles podem ser tranquilamente objeto de programação de borrifamentos e inspeções periódicas por alguma das diversas equipes de agentes sanitários contratados para isto, e disponíveis aos montes em certas cidades.
Um único vagão que se abstenha de ser destruído já é um enorme ganho financeiro, já que qualquer compra posterior para sua reposição custará, sem a menor sombra de dúvida, muitíssimo mais que a colocação de uma equipe de agentes permanente e exclusivamente para aquele único vagão. É só fazer as contas. Um único vagão custa mais do que uma equipe destas, dedicada exclusivamente a ele, por meses!
Outra coisa, O número de vagões e carros em cada pátio ou depósito NÃO É TÃO GRANDE ASSIM. Tomemos o exemplo do pátio do Horto da MRS em BH, praticamente o único e maior depósito em toda a Região Metropolitana. Nele se encontravam cerca de 18 (dezoito) carros de passageiros estacionados, além de diversas locomotivas canibalizadas pela Concessionária.
Nele estão parte dos históricos carros Budd em inox, que rodaram nas lendárias linhas Vera Cruz, Santa Cruz e da Mantiqueira. Estão também outras relíquias em aço carbono, que atenderam como carros leito, em linhas de longo alcance como Belo Horizonte – Montes Claros.
São estes os carros que estão programados para serem recuperados e rodar atendendo a tão esperada linha Belo Horizonte – Parque de Inhotim, operação esta que não se materializou ainda apenas pela intransigência e maldade da Concessionária MRS.
Todos estes carros, apesar do vandalismo generalizado a que foram submetidos, estão com sua cobertura intacta, e não chove em seu interior.
Cerca de metade destes carros estão com as janelas quebradas, e podem ter seu interior molhado. Mas, vejam algumas fotos do interior destes carros TOMADAS EM UM DIA DE CHUVA.
Existem pisos molhados, mas definitivamente não há empoçamentos que justifiquem o sacrifício dos carros.
Ou ainda, como carros como o abaixo poderiam estar acumulando água? No máximo basta fechar a porta para que nem o piso se molhe mais.
Agora, observe algumas locomotivas.
Em algumas delas, como nestas maravilhosas ALCO da década de 1950, cultuadas em todo o mundo, não existe a menor possibilidade de empoçamento, já que sua carenagem está praticamente intacta.

Várias outras locomotivas foram, entretanto, canibalizadas mais seriamente, e a carenagem, às vezes, não existe completamente. Nestas, é o caso de estudar, caso a caso, a necessidade de um lonamento.

Estas fotos do pátio da MRS têm cerca de 3 anos. Provavelmente, se existirem locomotivas serão pouquíssimas, pois o corte de locomotivas “permutadas” nunca parou naquele pátio.
Suponhamos, entretanto, que tenhamos 30 máquinas, entre carros e locomotivas, neste pátio do Horto. Se fosse o caso de 1 (uma) única pessoa, 1 (um) único agente sanitário, percorrer as 30 máquinas pulverizando seu interior com larvicida, quanto tempo levaria? Andando muito lentamente, a 0,5 m/s, alguém levaria 52 segundos para percorrer o maior dos carros que poderia haver naquele depósito. Ou seja, andando lento em cerca de 1 minuto uma pessoa consegue pulverizar todo o interior do maior carro (26 metros de comprimento). Supondo 30 carros , temos 30 minutos. Supondo 1 minuto para sair de um carro e entrar no outro, tempo total para pulverização do pátio inteiro, por uma única pessoa : 1(uma) hora! E se fosse por uma equipe?
O pessoal do DNIT fez estas avaliações?
O pessoal do DNIT verificou o que acontece de fato nos carros e máquinas estacionados?
O pessoal do DNIT está entendendo a extensão do estrago de uma decisão como esta?
O que o pessoal do DNIT vai oferecer para rodar na linha Belo Horizonte – Inhotim, ou na linhas que o movimento Trem Bâo de Minas quer colocar em operação, quando descobrirem que estes carros com que contavam foram picotados?
Quanto custou, ou custa, o patrimônio que será perdido por mera preguiça, desinteresse e incompetência de se procurar pelas alternativas lógicas.
Este é o preço que nosso país vem pagando pelas decisões destes engravatadinhos que caíram de paraquedas nas posições que estão, e que se julgam muito entendidos em coisas que na realidade nunca viram. Causam um bruto estrago, o país retrocede mais um tanto, somem de cena, e nunca são responsabilizados.
OUTROS CASOS
Diversos outros modelos de vagões existem e cabe comentar um pouco sobre cada um deles, dentro do tema da sua destruição por conta de mosquito.

Muito comum em qualquer linha no Brasil, até o advento das Concessionárias, era o vagão de carga fechado, ilustrado na foto ao lado. Alguns deles existem no Horto em BH, mas são muito comuns em quase todos os depósitos. TODOS ESTÃO CONDENADOS, PELA ORDEM DO DNIT, A VIRAR PÓ.
A quase totalidade da frota destes vagões foi encostada, sem uso algum, em perfeito estado, pelas Concessionárias, simplesmente porque as Concessionárias NUNCA quiseram saber de transportar cargas.
Estes são vagões para carga geral, diversificada. Mas, nunca foi isto o que as Concessionárias queriam transportar. Elas querem transportar minério e soja, e o vagão não é este. Este é o vagão para levar as cargas que o caminhão hoje leva. O dia que em que nosso país conseguir voltar com suas cargas para a ferrovia, serão estes os vagões a ser utilizados.
São estruturas muito robustas, e a quase totalidade está intacta, já que não há muito o que vandalizar. A não ser pelas portas existentes dos dois lados eles são totalmente vedados. Quer garantir total secura interna? Basta fechar as portas. Como justificar destruir este material por conta de mosquitos?
Abaixo um modelo aberto, do qual existem poucas unidades. Em geral utilizados para carregamentos diretos com empilhadeiras. Suas laterais podiam ser de chapa (removíveis) ou lona, e seu piso pode ser de madeira ou de chapa. Aqueles com piso de madeira dificilmente empoçam água. Aqueles com piso de chapa, podem sim, empoçar, dependendo de haver amassamentos na chapa. Mas, mesmo aqui não é o caso de destruir estes carros por conta disso. Pode-se usar um maçarico, não para picar todo o carro como quer o DNIT, mas para abrir buracos no piso, ou retirar o piso em alguns casos mais graves. Este trabalho teria de ser feito uma única vez, e não inutiliza o vagão, pois o piso poderá ser reposto quando necessário.


Alguns depósitos existem que acumulam vagões graneleiros como os da foto. Existem os chamados HAT, sem cobertura alguma, como à direita na foto ao lado, e os Hopper, que são cobertos. É impossível acumular água nestes modelos, pois eles possuem abertura no fundo por onde o granel é despejado quando no destino.

E finalmente a estrela atual do ferroviarismo nacional, a gôndola, para carregamento de minério. Este modelo sim, pode acumular água.

Acontece que tanto os graneleiros para a soja, como as gôndolas para o minério, são os objetos de desejo das Concessionárias.
Gôndolas praticamente inexistem em depósitos, mas graneleiros sim.
Gôndolas não correm risco de serem picadas desnecessariamente, mas graneleiros sim. Depósitos com graneleiros e gôndolas em geral estão fora de cidades, no meio de linhas na zona rural. Parte deles são resultado de acidentes, dos quais os vagões saem retorcidos. Neste material retorcido há possibilidade de acumulo de água. ESTES SÃO PROVAVELMENTE A ÚNICA SITUAÇÃO ONDE A SOLUÇÃO É O RETALHAMENTO DEFINITIVO.
Continua no próximo domingo…

Uma vergonha. O DNIT e a ANTT não tem vocação ferroviária. São substitutos do malfadado DNER. Não se pode esperar nada deles. Talvez acionar o IBAMA (meio ambiente) para multar essas concessionarias fosse melhor.
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Amauri
É muito grande o discaso do DENIT e da ANTT. Até quando teremos de assistir a estes descalabros?
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