Colaboração de Genésio Pereira dos Santos, ferroviário, jornalista, advogado e escritor.
No sistema viário, a rodovia não tem o “apelo” que a ferrovia tem, sendo esta citada em prosa e verso desde que começou a circular em 1854, vedeta de todos os modos de transportes. Em quatro belíssimas e ricas edições, a primeira, iniciada e lançada pelo saudoso professor Victor José Ferreira, a antologia do trem é marcada sobremaneira em três outras organizadas pelas poetisas Juçara Valverde e Lydia Simonato, nos livros: “O Trem e o Imaginário”, nas versões II, III e IV.
O engenheiro Sávio Neves, na apresentação da IV edição, lançada no dia 21 de setembro de 2016, sediada pelo Trem do Corcovado, declina, sabiamente: “Para se construir uma linha de trem, precisamos de muitos materiais: trilhos, britas, dormentes, etc e muitos materiais. Para se construir uma antologia, precisamos de muitos poetas, cronistas… e sonhadores.”
O festejado Historiador e Pesquisador, Antonio Pastori, em seu “texto-orelha”, perpassa com lucidez e inspiração o seu sentimento de ferroviarista: “O Povo dos Trilhos pavimenta os caminhos de ferro com suas locomotivas de letras de papel em direção à multidão entusiasta que espera na estação do livro.”
Bela imagem! Como muitos arrebatedores e incendiários, Pastori prima pela volta do Brasil aos trilhos, com a circulação de trens de passageiros por este Brasil afora. Em meio ao seu desabafo, pega carona no manifesto futurista do poeta italiano, Filipo Marinetti e sentencia mais à frente de forma lúcida e corajosa: “Talvez queiram com isso libertar este país da fétida gangrena do império rodoviarista.”
Faço minhas as palavras do Sávio e do Pastori, reconhecendo a grande importância do modo rodoviário no e desenvolvimento deste País, mas que não tem o apelo cultural sob todos os aspectos que envolvem o ferroviário, fonte inesgotável desde 1854, quando aqui “correu” o primeiro trem, por inspiração do empreendedorista, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, elevado ao grau de Visconde.
“O Trem Imaginário IV” (antologia), em sua edição, é uma riqueza de verso e prosa, graças às iluminadas cabeças pensantes para escrever com tantas e melífluas rimas, próprias de muita gente boa, que edificou às 143 páginas do livro. A Academia Ferroviária de Letras-AFL, a União Brasileira de Escritores-EBE foram obsequiadas pela colaboração do Trem Corcovado, pessoa de seu empresário, Sávio, que ofereceu as dependências de sua sede, para possibilitar o lançamento da obra prima organizada por Juçara e Lydia, poetisas de alto nível cultural.
Longe de qualquer comparação pejorativa ou de demérito para o rodoviarismo, ver-se é que o trem, a ferrovia realmente são fontes de músicas, peças de teatro, filmes, miniséries, redes sociais que empolgam sobremaneira. Efetivamente, o modal rodoviário não tem o viés poético como do ferroviário. Todos os ícones de transportes por sobre trilhos versaram desde os primórdios sobre a locomotiva a vapor, a histórica Maria Fumaça, carros, vagões, litorinas, etc e um punhado de acessórios.
Não desejando traças comparações óbvias em relação aos recentes megaeventos da Olimpíada e Paraolímpica, realizados nos meses de agosto/setembro de 2016, quanto às colocações do Brasil, no sistema viário atual, o modo ferroviário. O vergonhoso descaso das autoridades em não unir educação e esporte, levou o País a ocupar os 13º e 8º lugares, respectivamente.
Embora se tenha tão somente um número menor desses importantes ícones, a ferrovia está pra lá de Marrakeschi, mas é inspiração, é fonte de lindos textos poéticos e literários.
A digressão que lê-se acima se faz necessária por estar consubstanciada ao teor do livro, em seu mote cultural principal, pois, efetivamente, não uma cultura contemporânea sedimentada para que se implante a cobiçada mobilidade urbana, sem a circulação de trens de passageiros no País.
Nesse particular estamos literalmente atrás do modo rodoviário, que abocanha os privilégios e beneses do governo, em detrimento do ferroviário que “virou” o primo pobre, face ao tamanho deste Brasil-continente.
Saúdo, pois, os que escreveram no livro desta 4ª Antologia; “O Trem e o Imaginário IV”(excetuando-me), num verdadeiro apostolado de literatura, admirável duto, por onde se transporta cultura produzida por esses abnegados acadêmicos apaixonados pelo trem, que enriquecem a AFL e a UBE.
