Quando a fusão da empresa de logística Rumo com a ALL foi aprovada, em fevereiro de 2015,o executivo Júlio Fontana Neto, escolhido para comandar o negócio, sabia que encontraria uma companhia com uma série de problemas – algo que era de conhecimento de boa parte do mercado. Mas, assim que assumiu a operação, dois meses depois, ele não imaginava que as dificuldades seriam muito maiores do que seus piores pesadelos poderiam supor. Nada representa melhor o estado de degradação operacional da ALL do que uma desguarnecedora chinesa, uma máquina que substitui toda a brita que dá sustentação aos dormentes nos trilhos.

O equipamento, que custou US$ 4,5 milhões, estava abandonado e dentro dele nascia uma árvore. Esse era o primeiro indicativo de que o que já estava ruim poderia ficar pior ainda. As descobertas, ao longo das primeiras semanas, não pararam de surpreender Fontana Neto. A rede estava toda deteriorada: 81% dos vagões e 72% das locomotivas, por exemplo, estavam com as manutenções atrasadas. Os dormentes de eucalipto precisavam ser trocados. E até  uma graxa barata e de má qualidade causava problemas nos rolamentos dos trens, aumentando o risco de acidentes.

Um ano depois de assumir a operação de uma empresa que mais parecia um trem descarrilado, Fontana Neto começa a recolocar a Rumo ALL nos trilhos. Ainda estamos ajustando a casa e temos muito mato para cortar, diz o executivo, que também já comandou a MRS e a Cosan Logística. Nos primeiros 12 meses à frente da empresa, Fontana Neto se focou em olhar com uma lupa todos os gargalos que faziam a malha de quase 12 mil quilômetros de trilhos da antiga ALL estar emperrada.

Em linhas gerais, o plano para recuperar a credibilidade envolve melhorar a capacidade dos trens, reduzir os acidentes para aumentar a velocidade média da ferrovia e resgatar o relacionamento com os clientes, que também estava desgastado. A própria Rumo, antes da fusão, havia se metido em uma disputa judicial com a ALL por conta de um contrato de mais de R$ 1 bilhão. Em paralelo, era preciso renegociar uma enorme dívida, que somava R$ 8 bilhões no fim de 2015, mais de quatro vezes a geração de caixa da empresa…

…Ao mesmo tempo, a empresa manteve um alto índice de ocorrências de acidentes. Em 2014, foram reportados 366 acidentes, uma média de 30 por mês. Em 2015, a média subiu para 41. Mas, nos três primeiros meses de 2016, caiu para 25. Em Santos, por exemplo, havia uma média de dois incidentes por dia com os trens da ALL – hoje está próxima de zero. Por essa razão, a crise operacional foi a primeira a ser atacada pelos novos donos da Rumo ALL, que passou a ser controlada pela Cosan Logística, do empresário Rubens Ometto…

Fonte: Isto É Dinheiro (Ralphe Manzoni Jr)