“Dado estarrecedor, que a OMS apresenta é o custo global US$ 518 bilhões/ano, em acidentes”

Texto: engenheiro ferroviário Henrique Futuro

Os desafios no transporte e trânsito das grandes cidades, podem ser resumidos em dois temas principais: os congestionamentos, com suas consequências imediatas (poluição do ar, sonora, tempos gastos nos deslocamentos, etc.) e acidentes (diversas causas). O tema vem sendo debatido por especialistas do setor, pela população que faz uso dos sistemas públicos nas grandes e médias cidades brasileiras, além de ser recorrente em campanhas políticas e movimentos sociais.

Nasce, assim, uma consciência cívica de que os problemas de transporte urbano alcançam ampla dimensão social, afetando a saúde e a qualidade de vida da população, isso sem mencionar as perdas econômicas geradas pelos engarrafamentos, acidentes, etc. Este aspecto do trânsito nas metrópoles já é, há tempos, do conhecimento dos países mais desenvolvidos que ao longo dos últimos dez anos vêm tentando conter a expansão do transporte individual com maciços investimentos na melhoria e qualificação dos transportes públicos, e na aplicação da telemática no planejamento e controle nos sistemas de transportes e na implantação de novos serviços de informação à polução.

No estudo – Custo Social dos Transportes – realizado pelo IPEA/ANTP, já por volta de 1998, considerando 10 grandes cidades brasileiras, estimou que as deseconomias geradas pelos congestionamentos alcançavam a cifra de R$ 474 milhões por ano. Em outro estudo – Impacto Social e Econômico dos Acidentes de Transito nas Aglomerações Urbanas – realizado pelos mesmos, no período de 2001 e 2003, concluiu por perdas anuais da ordem de R$5,3 bilhões, em 2001.

Mais recentemente a Organização das Nações Unidas preocupada com o crescente agravamento da violência no tráfego das vias públicas, elaborou uma resolução proclamando a Década de Ação pelo Trânsito Seguro 2011/2020, na qual governos de todo o mundo se comprometeriam a tomar novas medidas para prevenir os acidentes no transito e, posteriormente, reduzir as cifras de vítimas previstas, mediante a formulação e implementação de planos regionais e mundiais. Os números apresentados pela Organização Mundial da Saúde que serviu de apoio à formulação dessa resolução são estarrecedores, indicativos de uma real pandemia. Estima-se que 1,24 milhão de vidas foram perdidas em 2010, como resultado de acidentes no tráfego rodoviário, dos quais 80 por cento estavam em países de renda média.

Outro dado estarrecedor, que a OMS apresenta é o custo global US$ 518 bilhões/ano, em acidente, dado de 2012 e que também foi citado no Mapa da Violência 2012 – Caderno Complementar 2 – Acidentes de Trânsito, elaborado pelo Instituto Sangari.

Com relação ao Brasil, dados do Ministério da Saúde, apresentam um índice de 18.9 fatalidades por grupo de 100 mil habitantes. Países líderes, alguns europeus e outros asiáticos, registram uma taxa de cinco mortes por 100 mil habitantes.

Nos principais centros urbanos do país, principalmente aqueles em desenvolvimento, ou para ser mais exato, os BRICS, observamos a cada ano um vertiginoso crescimento da frota de veículos, sem a correspondente contrapartida de melhorias no sistema viário ou mesmo com a preocupação na questão das emissões de gases poluentes. Todavia, mesmo dispondo de recursos é impossível e inviável a expansão das vias na mesma proporção, em contra ponto aos efeitos ambientais e energéticos que essa expansão acarretaria isto, sem detalharmos a questão do uso e ocupação do solo.

São diversas as dificuldades para reverter esse quadro, que pode ter sua origem desde a fragilidade institucional às restrições orçamentárias dos organismos gestores, passando pela ausência de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, pela falta de uma política nacional na questão do uso de sistemas inteligentes de transportes, e ainda, pelo despreparo da população para uma convivência harmoniosa no ambiente de trânsito.

De forma a mitigar todas estas questões levantadas anteriormente, o investimento e a requalificação do transporte público, de modo a fazer com que o cidadão opte por um modal rápido, com qualidade e ambientalmente correto, para fazer o seu deslocamento, é um caminho. Porém, esta solução é um processo de longa maturação, que envolve vontade política, a integração de políticas públicas de transporte, desenvolvimento urbano, e principalmente o uso de tecnologias aplicadas ao transporte, com vistas a melhorar a mobilidade nestes grandes centros.

Diante de tais desafios, não só de nossa sociedade, mas também de países já bastante desenvolvidos, observou-se que qualificação do transporte púbico, a modernização tecnológica do transporte, em seus diversos segmentos, não somente do ponto de vista da aquisição de modernos meios de transportes, mas principalmente, através do uso de Sistemas Inteligentes de Transportes, tem um grande potencial de transformação num horizonte de curto prazo e que pode contribuir significativamente para a melhoria da mobilidade urbana, com reflexos na satisfação do cidadão e na redução da poluição urbana provocada por veículos.

A aplicação da tecnologia da informação, aliada à telecomunicação e eletrônica, no planejamento, gestão, operação, fiscalização e segurança nos transportes urbanos tem se configurado como alternativa viável em termos de custo-eficácia, e ainda, contribuído para o atendimento das indispensáveis características de sustentabilidade no setor de transportes. Esta nova “ciência” conhecida mundialmente como Sistemas de Transportes Inteligentes – STI (ITS – Intelligent Transportation Systems) encontra-se em franca expansão nos países desenvolvidos e no Brasil começa a dar os seus primeiros passos. Só para termos uma comparação, o programa STI norte-americano, estimava os seguintes resultados no período de 1996 a 2015: redução dos custos de acidentes em 44%, economia de tempo de viagem em 41% e reduções de emissões e consumo de combustível de 6% (Fonte US.DOT-US. 1998)

No próximo artigo falarei de uma proposta sobre a criação de uma estrutura, a nível Federal, pois é este ente público o reponsável pela geração de políticas de mobilidade urbana para o país.

Henrique Futuro é engenheiro especialista em transporte público, com 32 anos de atuação nesta área