Comentários por Fernando Abelha

Sucessões de erros são cometidos por responsáveis dos transportes públicos na cidade do Rio de Janeiro. Na Barra da Tijuca, o BRT ( Ônibus Articulados que deveriam ser de trânsito rápido),  fruto do lobby rodoviário, ocupou o espaço que, pela lógica, caberia ao VLT ( Veículo Leve Sobre Trilhos). Como se não bastasse a mesma decisão foi adotada na Zona Norte da cidade reduzindo uma pista da Avenida Brasil em cada sentindo, o que piorou, sobmaneira, o trânsito que já era precário por excesso de ônibus. Esta medida de curto prazo exemplifica, plenamente, a execração do transporte sobre trilhos. 

Pistas do BRT Transoeste

já têm buracos e ondulações no asfalto

 

Asfalto BRT.jpg
Reprodução Internet

RIO — A sensação de circular dentro de um ônibus do BRT Transoeste, de Santa Cruz até a Barra, é comparável à de estar dentro de um liquidificador, tamanha é a quantidade de buracos, calombos e remendos no meio do caminho. Há problemas tanto em frente às estações quanto em outros pontos das pistas, o que torna as viagens mais longas e perigosas. A má qualidade da via já deixou gente ferida dentro dos ônibus e provocou defeitos nos veículos. Quando chove, a situação do asfalto só piora — as fendas parecem se multiplicar e se tornam ainda maiores.

Inaugurado em 2012, com 52 quilômetros de extensão, entre Campo Grande e o Terminal Alvorada, o corredor expresso coleciona problemas. Passageiros contam que, logo após o início do funcionamento do BRT, as pistas já apresentaram sinais de que não suportariam os veículos. E os trabalhos de recapeamento em alguns trechos não têm dado jeito na buraqueira. No asfalto recente, já é possível ver verdadeiros “quebra-molas”. Em todo o percurso, o quadro é mais dramático entre as estações Pingo D’Água e Ilha de Guaratiba, ambas em Guaratiba. Lá, é difícil encontrar cem metros de pista que não apresentem qualquer problema, que incluem a falta de divisória entre a via exclusiva e a destinada aos demais veículos.

— Já aconteceu de eu estar num ônibus e o eixo de uma das rodas traseiras se quebrar por causa de um buraco. O pneu também estourou. Foi entre as estações Magarça e Mato Alto, em Guaratiba. As pistas estão horríveis — reclama a passageira Rita de Cássia Moutinho, de 61 anos, cuidadora de idosos que usa diariamente o transporte para ir de casa, em Guaratiba, até o trabalho, na Barra.

Um funcionário diz que é só chover para o asfalto ceder ainda mais. Embora em Santa Cruz e Guaratiba as falhas sejam mais recorrentes, Recreio e Barra não estão livres de calombos e buracos: — A prefeitura não vem recapear com constância o asfalto. O que fazem é jogar asfalto por cima dos buracos, criando calombos parecidos com quebra-molas. Nem máquinas usam para nivelar a pista, cabendo esse trabalho aos ônibus e seu peso sobre o asfalto — diz o motorista. Para Eva Vider, engenheira e professora da Escola Politécnica da UFRJ, as pistas teriam mais qualidade se fossem de concreto no lugar de asfalto:— Não existe ali infraestrutura para suportar aquele tipo de veículo. O material usado não é apropriado para aguentar o peso dos carros, que passam geralmente lotados, nem o nosso calor tropical. É comum o asfalto se deslocar para o alto devido a essas condições. Acho que foi um erro de projeto. A qualidade da pavimentação não é boa. Só que concreto é mais caro e faz a obra levar mais tempo”.

A Secretaria Municipal de Obras informou, sobre a pavimentação do Transoeste, que a pista foi feita com SMA (Stone Mastic Asphalt), “um revestimento resistente e adequado para cargas pesadas”. De acordo com o órgão, o SMA tem, entre seus benefícios, permitir a rápida liberação da via após a sua aplicação, feita a frio, “fundamental no sistema de BRT para que os ônibus possam continuar operando na pista exclusiva”. A opção por usar o material foi técnica, disse a secretaria, porque o solo da região é mole, e o concreto não seria adequado. A construção das pistas custou R$ 1,1 bilhão.

Fonte: O globo