Comentários por Fernando Abelha
Não dá bem para entender as razões pelas quais as obras governamentais se iniciam sempre do fim para o princípio. Assim é com a construção da linha 4 do metrô carioca. Nada mais lógico do que partindo da estação Uruguai perfurarsse o maciço da Tijuca, e chegasse ao bairro da Gávea em um circuito circular o que é obvio. Desta maneira, proporcionaria aos passageiros a opção de chegar a Zona Sul da cidade sem a necessidade de passar pelo centro, ganhando significativo tempo de percurso.
Um traçado circular
Ligação entre estações Gávea e Uruguai
aproximaria a região Oeste das regiões Norte e Central
Por Hugo Repolho
A atual obra da linha 4 do metrô ( Barra- Ipanema) só estará inteiramente disponível para a população em 2017. Serão 16 quilômetros de linha subterrânea ligando a linha um em direção à Zona Oeste, seis estações e 385 mil passageiros por dia. Sua eficiência quanto à capacidade de atender à demanda, no entanto, é questionável, já que mantém a estrutura linear (em tripa) do atual sistema.
Uma solução para tornar o sistema de metrô circular seria a implementação da ligação entre as estações Gávea e Uruguai, que fazia parte, em 1998, do projeto original Programa Estadual de Desestatização. Esta rede, se implantada, permitiria redistribuir os fluxos de passageiros e reduzir o tempo empregado nos deslocamentos. Estas foram as hipóteses testadas numa dissertação de mestrado de autoria da engenheira Márcia Gomes, na PUC- Rio.
No estudo, comparamos a rede em implementação com esta alternativa, usando as projeções do Relatório Final dos Estudos de Demanda para a Linha quatro do Metrô, de 2011. Caso fosse implantada, haveria opção para deslocamento entre as estações localizadas nas zonas Sul, Norte e Central, transformando a proposta linear em circular. Vindo da Zona Oeste, a opção ocorre a partir da Estação São Conrado: através da ligação Gávea- Uruguai ou via Antero de Quental (projeto em implantação).
Chamamos atenção também para a questão da taxa de ocupação, tomando como exemplo o metrô de Brasília, que, em 2008, teve a demanda triplicada após a inauguração de cinco novas estações. Este é um dos riscos que a Linha quatro deve enfrentar. Com a ligação Gávea – Uruguai seria possível aproximar a região Oeste das regiões Norte e Central e cem mil pessoas seriam beneficiadas diretamente, com a redução no tempo de deslocamento e no desperdício com horas improdutivas. Outra vantagem seria o conforto, com a redução significativa de usuários nas composições.
Vale lembrar ainda que, pelos cálculos da Firjan, o custo dos congestionamentos, na Região Metropolitana, considerando perdas de produção e gasto extra com combustível, atingiu o montante de R$ 29 bilhões em 2013, o equivalente a 8,2% do PIB metropolitano. Há ainda os estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada confirmando que 27,4% da população do Rio de Janeiro desperdiçam mais de uma hora em cada trajeto casa- trabalho. A dissertação concluiu ainda que, conforme projeções de 2011, as horas perdidas no metrô, devido à configuração “em tripa” (linear), equivalem a cerca de R$ 5,5 milhões por mês.
Neste contexto de “imobilidade urbana”, o estudo confirma que uma ligação entre as estações Gávea- Uruguai é essencial para aumentar a capacidade do sistema metropolitano do Rio. Certamente traria mais qualidade de vida, ao reduzir o tempo de viagem e o número de usuários no horário de pico. Assim, os passageiros atendidos pela linha 1 que embarcam nas estação da Zona Norte (Uruguai, São Francisco Xavier, Afonso Pena, Estácio, etc.) são hoje obrigados a dar a volta uma volta enorme para chegarem a Zona Sul, com um desperdício de tempo significativo.
Hugo Repolho é professor do Centro Técnico Científico da PUC-Rio
Fonte: O Globo
